
Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Drica era toda sorrisos. Aprovada no vestibular iria estudar na capital. Não sabia ela que aquele seria o motivo de uma série de desentendimentos com Floriano, seu namorado desde a tenra infância. Em realidade, aquele relacionamento era mais um projeto de suas famílias que de ambos, propriamente dito. Mas, como estavam acostumados um ao outro, simplesmente conviviam, alternavam momento de pura amizade e malícia, não tão ingênua, provocada pelos hormônios em ebulição, bem próprios daqueles que acabaram de sair da adolescência. Diariamente passavam horas a fio a conversar sobre tudo e sobre nada.
Nas férias merecidas após as provas, dias maravilhosos são passados juntos. Flor, como era intimamente chamado pela namorada, queria porque queria “enfiar uma aliança” no dedo de Drica. Buscava a ilusão de alguma segurança; Drica tinha na instabilidade de humor a sua principal característica. Um dia estava um doce, cheia de carinhos para dar ao pretenso amado, certa de que queria casar−se com ele e formar família, pelo que se julgava a mais feliz mulher. Noutro dia estava amarga, seca, queria distância de Floriano, julgava ser um grande erro aquele relacionamento, vez que nenhum dos dois tivera outro relacionamento senão aquele e se julgava a mais infeliz das mulheres, por não ter forças para romper com aquela “farsa”.
A ida dela para a capital lhes foi de serventia. Ele permaneceu no interior, trabalhando ao lado do pai, cuidando dos negócios da família. Até faziam planos de como ela poderia ajudá−los, já que ele era filho único e com a união futura, todo aquele patrimônio seria comum aos dois. A distância e a ausência física deram−lhes condições de avaliar melhor os seus sentimentos e pretensões. Tudo ia bem até o dia em que Drica resolve estrear o seu novo biquíni…
Aquele corpanzil, de pernas grossas, ancas largas e cintura fina era de chamar a atenção. Só então Floriano despertou para o fato de que Drica não lhe “pertencia com exclusividade”. Começou a se preocupar com quem e para onde saía, a que horas voltava, se bebia, etc. Flor entrou em paranóia e sua situação piorou com o adoecer de sua mãezinha.
Dias depois, Drica é informada do agravamento da doença de sua sogra que veio a falecer no fim de semana seguinte. Nos funerais, Drica estava todo o tempo ao lado de Floriano, cuidando dele como nunca se viu antes, zelava e o cobria de atenções.
Ao regressarem a casa, Floriano demonstrando toda a sua fragilidade naquele momento, recostou sua cabeça no colo da amada, como se pedisse silenciosamente para receber afagos. Feito isso, ela entregou−se de corpo e alma a Flor. Dedica−lhe o melhor de si. Pela primeira vez fala espontaneamente de casarem−se e de filhos. Floriano alegra−se e até esboça um sorriso, ainda que tímido em meio às lágrimas que insistiam em correr−lhe pela face…
Ao perceber o que estava acontecendo, na mais pura inocência, Drica começa a embalá−lo, como se cuidasse de um filho nascido de seu próprio ventre.
Mal começa a niná−lo com uma cantiga infantil:
− Boi, boi, boi, boi da cara preta…” − e, sem mais nem porque, Floriano dispara em desabalada carreira…
Nunca mais quis saber da amada, doou todos os seus bens e foi viver recluso num mosteiro.
Sabe−se lá o que se passou na cabeça daquela criatura…