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Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Estou em um aeroporto. Aqui cheguei às duas horas da manhã. Preciso e desejo voltar a casa, lá em Recife. De repente, um chamado da companhia aérea avisa que o aeroporto destino de um outro vôo não apresenta condições de pouso devido à neblina - está “fechado”.
De repente, mais uma vez, pessoas correm aos telefones públicos para ligar para pessoas que as aguardam. São familiares, amigos, parceiros comerciais... seja para quem for. TI-TIN-TUM, quantidade igual de telefones celulares têm seus “flips” abertos para cumprirem igual missão.
Passa o tempo. Tenho pressa para chegar. O meu vôo está confirmado, apenas é muito mais tarde. Devo esperar. Tenho paciência para isto. Uso o meu tempo observando as pessoas. Procuro apreender, perceber emoções nos comportamentos. Vou percebendo delimitações de expressões nos rostos, na movimentação angustiada. Um casal permanece inalterado em suas carícias mútuas. Alguns se sentam ao chão como que conformados. O salão vai ficando lotado. Chegam mais e mais. Parece não haver perspectivas.
Já faz alguns minutos há demora. Cigarros são acesos, tragados ansiosamente. Cafés deglutidos pesarosamente. O vídeo de comerciais já se repetiu por inúmeras vezes. Ao invés de relaxar, começa ser IRRITANTE, ESTRESSANTE e... torna-se desprezível, até virar um ilustre despercebido. Celulares tocam a cada momento. Preciosos minutos não podem ser perdidos. Há muito que fazer.
Uma criança corre irrequieta. Uma inquietude reflexo da seriedade, quero dizer, da sisudez, das faces enrijecidas pela preocupação com os tantos compromissos a esta altura não atendidos.
Pessoas permanecem estáticas, outras circulam desordenadamente. Não se interessam por nada além de suas próprias preocupações.
De repente, observo que alguém de forma isolada retorna ao “orelhão” e começa a ouvir algo que aos poucos vai mudando sua feição e... VIBRA, VIBRA INTENSAMENTE. Sorri espontaneamente, pleno de alegria. Uma alegria que qualquer dos presentes não poderia compreender. Então, querendo compartilhar com todos tal alegria, ele explica tal satisfação: - PAI, eu sou pai. Eu tenho um filho a me esperar. Estou feliz porque tenho um bom motivo para voltar.
Ainda que por poucos segundos, todas as feições perdem a rigidez. Um alívio coletivo transparece no ambiente. E todos, mesmo que de forma efêmera, conquistam a mesma alegria. Têm uma fração de suas vidas mudadas pelo exemplo, pela coragem de se expor de alguém despretensioso e que, acima de tudo, teve coragem de ser verdadeiro, autêntico. Que maravilha!
Tenho a notícia de que a minha aeronave também se atrasará. Mudo o meu semblante, pareço não acreditar que também acontece comigo. Olho ao meu redor. Nada é igual ao começo de tudo.
Chega a hora do meu embarque, não farei mais parte daquele grupo. Não sei bem se todos tirarão do ocorrido a mesma lição que aprendi. Contudo, tenho para mim a certeza de que muitos comentarão o fato e de que terceiros que não estavam presentes, através da reflexão, incorporarão algo significativo em suas vidas. São 11h, estou partindo. Para cada um de vocês meus amigos: Boa viagem...
Aeroporto de Cumbica - SP, 24 de março de 1997.
criado por Tonton
18:23:37