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Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Para Braga Câmara
Dizem que ele era realmente um fenômeno! Dizem até que ele aprendeu a ler e a escrever antes mesmo de aprender a falar! Pelo que corre na vizinhança tudo se deve a uma babá que ele teve logo nos primeiros meses de vida que, preguiçosa que era, deu-lhe para morder alguns lápis de coloridos de cera. Como o gosto não era bom – dizem né, eu nunca provei – parece que ele arremessou o giz de cera contra a babá, contudo, sem acertá-la, se encantou com as cores que saiam de sua boca. Dizem mesmo que foi este trauma que fez com que ele demorasse a falar. Convenhamos isso não se faz com um bebê! Coitadinho dele, não é verdade?
Ao que parece, ele aprendeu a fazer riscos coloridos e se encantou tanto com as cores que chorava dia e noite se não os tivesse ao seu lado quando acordava. E vocês sabem como é criança nessa idade, come, dorme e suja fraldas... Bom, no tempo em que ele era bebê ainda não havia as fraldas descartáveis como hoje em dia. Sujou, joga fora. Disseram-me que ele aprendeu a ler e a escrever observando o pai que era professor universitário e vivia às voltas com livros e mais livros, provas e mais provas.
Era o pai que saía com ele no carrinho para passear e dar uma folga para a mamãe que ninguém é de ferro. O danado é que o pai o levava no carrinho e ficava a ler todo o tempo. Aí o bebê começou a tomar gosto pela coisa e...vupt!, num passe de mágica, começou a ler e a escrever do nada. Surpreendente? Põe surpreendente nisso!
A coisa era tão estranha que os pais dele tiveram que se mudar da cidadezinha do interior para a capital. Acho que você entende bem a situação. Cidade pequena, a noticia se espalhou. Eles já não tinham mais sossego. Em poucos dias o bebê se tornou atração quase que circense. A coisa tava ficando fora de controle. Todo mundo queria saber a receita de algo tão inusitado...
Na capital eles tiveram sossego por alguns anos. Ele já estava na 4ª série primária quando a professora descobriu os dons literários dele. Redações, composições, poesias, romances e outros escritos eram de uma qualidade surpreendente. Em poucos dias havia jornalistas querendo fazer reportagens, redes de televisão querendo exclusivas, debates nas rádios, manchetes de jornal... O circo estava armado!
E não deu outra!
Críticos e escritores se curvaram ao seu talento. Ele ia ser o mais jovem escritor a tomar posse na Academia de Letras. Tinha menos de 10 anos e iria alcançar a imortalidade. E alcançara de modo tão simples algo que alguns adultos só o conseguem – e muitos nem com isso – após muitos acertos e... Bom, você sabe o que eu quero dizer...
No dia marcado para a posse, surpresa! Ninguém sabia ao certo o seu nome. Pois, desde sempre o tratavam apenas por “pimpolho”. Era o pimpolho da Academia e pronto. Bastava isso... A hora foi passando, passando e nada do pimpolho chegar. Os ânimos foram se exaltando. Alguns diziam que era um desrespeito, um absurdo o que ele fazia... E por aquilo, por tamanha desconsideração a todas as honras que lhe eram dirigidas, jamais teria abertas as portas da Academia outra vez...
Pelo que se soube, dias depois, ele ficara para recuperação. Pois é, justo ele. Devido a alguma nota baixa? Que nada, por que faltara a prova pra ficar jogando bola na rua de casa com uns amigos... Coisa de pimpolho mesmo! E pelo que eu soube, quando cresceu ele se formou engenheiro e dos bons. Dizem até que seguiu a carreira do pai como professor universitário e tem alguns livros técnicos publicados. Todos devidamente esgotados... E, nesse momento, ele trabalha duro para revisar os textos e ampliá-los para uma nova edição.
criado por Tonton
08:58:22