25/1/09
Pondo fim à solidão…

Por Antonio Nunes
Era início da tarde de sábado, não passava das duas quando começou a se arrumar com o habitual esmero e zelo em cada detalhe de seus trajes. Escolheu cuidadosamente as vestes, os enfeites e, como não poderia deixar de ser, caprichou na maquiagem. A bolsa, o cinto e os sapatos combinavam perfeitamente entre si. Era uma pessoa elegante e gostaria de ser lembrada para sempre como tal. Tinha um orgulho incomum de ser reconhecida como uma das mais prestigiadas vedetes que este país já viu desfilar nos palcos de suas casas de espetáculo. Entretanto, isto escasseava a olhos vistos, que pousavam a atenção nela cada vez menos.
Iria ao shopping center do bairro no qual residia. Lá sempre havia muita gente e o burburinho das crianças, das famílias e da juventude a faziam sentir-se viva. Por entre os corredores do centro comercial sempre encontrava algo para chamar-lhe a atenção. Vez ou outra se permitia perguntar pelo preço desta ou daquela coisa. Dedicava horas à descobrir novos autores na livraria cada vez mais repleta de freqüentadores e, por fim, iria à cafeteria, onde sentada no cantinho habitual, contemplava o vai e vem dos transeuntes. Era uma festa para os sentidos toda aquela agitação do final de semana, que ela esperava ansiosamente chegar. Ali era sempre recebida com um sorriso pelas atendentes sempre atenciosas. Era bom sentir-se entre amigos, mesmo que eventuais.
Tomou um capuccino, degustando-o a cada vez que molhava os lábios delicadamente. Adorava sentir o calor do café, talvez o único prazer que experimentara com regularidade desde a morte da gata Josefina, sua fiel companheira em mais de uma década. Sorvendo a última gota daquele precioso líquido, fechou os olhos e levando as mãos à xícara ainda quente, pousou-a à mesa para, em seguida, orbitar a boca com o indicador direito, como se trazendo à memória uma boa lembrança, pois sorria, discretamente, em ato contínuo.
Abrindo os olhos, aproximou de si a xícara com ambas as mãos e percebeu não restar mais nada, além de uma borra de chocolate, café e do muito açúcar com que adoçava tudo o que bebia. Talvez, assim, a vida lhe parecesse menos amarga. Fez menção de raspá-la com a colherinha e deliciar-se com ela, mas recuou. Sorriu outra vez quando em frente a si um jovem casal fazia jogos de sedução com um gesto igualzinho àquele que ela acabara de se negar a fazer. Delicadamente enxugou os lábios, em um gesto meticulosamente estudado.
Com igual preparo, retirou da bolsa o estojo contendo o batom que cuidadosamente retocou olhando-se no espelhinho minúsculo. Fez questão de repicar o cabelo ao lado de cada orelha, deixando à mostra os brincos de pérola que ganhara muitos anos atrás em um concurso de beldades em sua cidade natal.
Fez sinal para a garçonete e fez questão de deixar-lhe como gorjeta todo o generoso troco da nota que depositara na caixinha, dobrada ao meio para não despertar a cobiça alheia. Levantou-se apoiada em sua bengala de cabo de madrepérola e dirigiu-se ao cinema. Escolheu o filme mais longo, não importava o gênero. Estava ali somente para passar o tempo e não para distrair-se. Foi saudada pelo bilheteiro ao início da fila que se formava para a sessão, reconhecendo-a por estar ali todos os sábados e garantindo-lhe a dianteira para que adentrasse com absoluta prioridade.
Passando ao lado dele um outro dos funcionários do complexo de lazer, pediu-lhe que a conduzisse com todo o conforto e segurança à sala de exibição. Ela agradeceu a gentileza e repousou levemente a mão sobre o rosto do jovem e educado cavalheiro, dirigindo-lhe palavras lisonjeiras que o fizeram corar à frente da platéia que se agigantava. Adentrou, escolheu o assento e aguardou o apagar das luzes. Como de costume, tirou da bolsa o drops de alcaçuz e o colocou sob a língua para derretê-lo de um modo bem especial, todo seu. Quando deu por si, os créditos da filmagem e das locações já apareciam na telona. E o dia quase que havia terminado…
Tomou o táxi e em poucos minutos chegou a casa. Ninguém foi recebê-la. Não havia ninguém para recebê-la. Com exceção da pequena lâmpada incandescente no oitão que dava para o quintal, tudo estava às escuras. Então, foi de imediato para a cozinha, pôs água no fogo para fazer o chá que tomaria de um gole único, com as muitas colheradas do formicida comprado no dia anterior, plena sexta-feira, 13 de agosto, devidamente dissolvido, como se fosse o saboroso açúcar que fazia questão de consumir. Afinal, tudo o que ela mais queria, em realidade, era por fim à solidão…
criado por contonton
10:34 — Arquivado em: 

Muito show.. IncrÃvel como você desliza de uma cena pra outra.. inveja xD~~~~.. O livro não chegou ainda =/
Comentário por Sara — 9 de fevereiro de 2009 @ 20:37