21/1/09
Tudo é relativo…

Por Antonio Nunes
Éramos bastante jovens, recém saídos da adolescência e de nossa cidade natal a muitos quilômetros da capital. Vibrávamos com a ideia de alguma independência e ainda mais com a possibilidade de levarmos uma vida a dois, longe das amarras de nossos pais – principalmente os dela, já que namorávamos às escondidas havia um bom par de meses.
Tudo era feito com muita discrição, com o devido cuidado para não sermos descobertos, revelados, pois certamente seria o fim de nosso romance, de nossos sonhos e de nossa liberdade. Ela fazia medicina e eu engenharia, carreiras tradicionais, satisfazendo as expectativas de nossas famílias tradicionais. Apesar de algumas barreiras em contrário, conseguimos convencer nossos pais, a despeito de seu conhecimento, a morarmos em um pequeno flat – cada um no seu – no mesmo edifício.
As nossas moradias eram mínimas, mas seriam nossos sonhados ninhos de amor. Não havia espaço para mais nada além da escrivaninha para estudos, a cama de solteiro, um pequeno guarda-roupa e a estante de nossos livros. Se a cozinha não fosse no estilo americano o aperto seria maior ainda. Espaço para uma cama de casal? Nem pensar! Acho que aquela visão, de certo modo, conferia uma pretensa tranqüilidade aos pais dela.
Entretanto, para nós, com os hormônios em ebulição, aquele aperto não significava absolutamente nada. Estávamos contentes por estarmos próximos. E não demorou estávamos nos visitando, na calada da noite e nos fins de tarde, para namorarmos, dormirmos abraçados e sairmos sorrateiramente em meio às madrugadas. A felicidade estava estampada em nossos rostos, embora nada declarássemos a respeito. Estava claro que mudanças se processavam em nossas vidas!
Esperta que era, a mãe dela logo arranjou um jeito de vigiar de perto a filha. Contratou para diarista a enteada de sua vizinha, que também morava na capital, e que, entre outras atribuições, tinha o dever de telefonar semanalmente à contratante para informar-lhe de sua filha, de sua evolução nos estudos ou de qualquer outra ocorrência suspeita. Foi aí que a coisa pegou…
Redobramos os cuidados. Sabíamos que estávamos sob vigilância e que qualquer erro poderia ser fatal para as nossas pretensões de amor livre e desimpedido. A tal D. Lourdes era um sargentão e frequentava a casa dela nas terças, quintas e sábados. E aqueles dias eram proibidos para mim. Uma verdadeira tortura para quem vivia cheio de carinho para dar e receber.
Então, em uma quarta-feira, fui à casa dela para encontrá-la e tentar matar refrear um pouco de meus instintos. As saudades eram imensas. Eu já não aguentava ficar tanto tempo longe de suas carícias. Tomei um bom banho, perfumei-me e com um sorriso de esperança nos lábios, toquei a campainha. E quem me aparece em pleno fim de tarde com um pano na cabeça? Ela, a vigilante D. Lourdes que compensava a falta do dia anterior no qual tinha levado ao posto médico o filho que adoecera de repente. Sem aviso, não deu para esconder o espanto. Perguntei discretamente pela amada que veio em meu socorro.
– A senhora conhece o Geninho, lá de minha cidade, não é verdade? Ele me perguntou se conhecia alguém que poderia fazer-lhe diárias e eu falei da senhora pra ele! – disse ela, com o que fui concordando com a cabeça imediatamente.
Ufa! Que boa ideia ela teve! – pensei com os meus botões.
Sentamos e rapidamente acertamos os dias, valores e todos os demais detalhes para a prestação do serviço. Ela fazia questão de incluir a lavagem completa das roupas. Era só para aumentar os rendimentos dela. Pacote completo, não fazia por menos! Enquanto fechava o negócio, mentalmente, fiz as contas e percebi que teria que cortar todos os supérfluos, entre elas as cervejas com os amigos e talvez, até mesmo, um ou outro cinema com a namorada. Bom, não tinha outro jeito, explicaria a parte do prejuízo do lazer e ela haveria de concordar com a decisão tomada naquela situação de extrema necessidade.
E assim fomos levando, driblando aqui e ali a sargentona. Mas sabem como é, né? Não existe crime perfeito e acabamos por deixar algumas pistas à mostra. D. Lourdes encontrou no apartamento dela algumas meias grossas minhas, daquelas de algodão, masculinas, bem felpudas e algumas camisetas, dessas de propaganda, no cesto de roupa suja. Só que ela se justificou legal, disse-lhe que era roupa para ginástica, para malhar, mais confortável e, ao que parece, a convenceu direitinho de estar dizendo assertiva inquestionável.
Só que comigo aconteceu diferente… Quando tratava de guardar a roupa passada em minhas gavetas, acabou por encontrar umas três calcinhas lavadinhas, dobradinhas, perfumadas que a minha namorada fazia questão de manter em meu apartamento para o caso de alguma necessidade, para depois de um banho ou simplesmente para a troca após uma noite de amor.
Eu somente tomei conhecimento do ocorrido e de sua repercussão algum tempo depois, quando retornei à nossa cidade para as férias de meio de ano, sendo duramente chamado de lado por meu pai e por minha mãe. Eles que eram sempre tão amáveis comigo estavam irreconhecíveis. Impossível saber naquele instante do que se tratava. E quem havia dado a informação aos meus pais havia sido a mãe dela que narrara o telefonema de nossa serviçal em comum:
– Ah, D. Ana, a sua filha é uma santa. Já o Geninho, dos Batista, aí da rua de baixo, sei não…
Não teve outro jeito. Tive que abrir o jogo com os meus pais, na maior. No mês seguinte celebramos o noivado, com o casório agendado e tudo mais, para a surpresa de D. Lourdes que, demitida que fora, estupefata, não entendia nada do que se passava… Eu conservava no rosto um irônico sorriso, um misto de vingança e satisfação…
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Este conto tem a cara do livro Contos Rebeldes! Lembrou-me do “Comprinhas Básicas”. Adorei. Me ensina seu segredo? Rs..
Comentário por Sara — 13 de fevereiro de 2009 @ 14:26