10/1/09
O rapto dos sorrisos…

Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Para Carol Castillo Iturrieta
A professorinha estava preocupada. Havia dias que não via um sorriso no rosto de seus alunos. Tentou de tudo: criou novas brincadeiras – as antigas já não davam resultado, leu todos os livros da biblioteca – e nenhum deles exerceu o menor encanto sobre eles, levou-os ao zoológico – para verem as macaquices e nada. Absolutamente nada!
Como aquilo atingiu toda a turma, pensou que se tratava de alguma epidemia, alguma virose, dessas extremamente contagiosas e que ninguém escapa de sua contaminação, pois ela mesma já não sentia a mínima vontade de sorrir. Imaginem só, mesmo exercendo o mesmo trabalho que já realizava há anos, ela não mais encontrava alegria em dar aulas aos pequeninos. Pensou que também adoecera…
Foi ter com a diretora do colégio que a orientou a procurar um médico. E lá foi ela a uma clínica, cuidar antes de si própria. Em lá chegando, poucos minutos depois saiu com a receita e o diagnóstico em mãos: depressão. Ela não podia e nem queria acreditar. Jamais imaginou que a ausência daqueles sorrisos pudesse ter efeito tão avassalador sobre a sua saúde. Iniciou o tratamento, mas não sentiu melhoras. Afinal, a causa do seu mal-estar estava bem ali. Aliás, não estava! A solução era, então, recuperar-lhes o sorriso. Mas como?
Estava convicta de que crianças sem sorrisos se transformariam em adultos infelizes, sem alegria. E aquela condição afetaria não somente a si mesmos, mas a todos que os cercassem. Ela própria era prova viva daquele fatídico destino.
Procurou sábios, cientistas, ocultistas, videntes, os mais experientes especialistas, entretanto ninguém soube apresentar solução satisfatória, muito menos contínua e duradoura. Parecia que não tinha jeito, que o mundo estava fadado a não ser mais o mesmo lugar interessante de antes…
Foi então que ela teve a feliz idéia de procurar D. Zefinha, já passando dos oitenta, quase beirando os noventa anos, sua antiga babá, fiel conselheira e eximia quituteira. Ao abocanhar guloseimas, experimentou recordações de sua infância, inclusive das gostosas gargalhadas que dava quando a descobriam de rosto pelo chocolate.
Esperta que era, D. Zefinha foi dando logo a solução:
– Ô minha filha, o problema não está nas crianças, a origem de tudo isso está nos pais!
Fazendo cara de espanto, deu de braços para cima e continuou a ouvir a explicação:
– Acontece que hoje em dia os pais estão cada vez mais preocupados com o trabalho, com a crise, vivem estressados, com cada vez menos tempo pra os seus filhos! Não conversam com eles, não brincam juntos, não andam de mãos dadas e sequer os põem para dormir. Assim não dá para assegurar-lhes algum calor humano! É só não, não, não…
E o sorriso foi voltando aos seus lábios. Timidamente, de início, é verdade. Mas foi o suficiente para ter certeza de que o remédio estava a caminho.
Saíram dali direto para o Congresso Mundial das Vovós Contadoras de Histórias, iniciando, imediata e mundialmente, a imunização contra aquele mal que ficou popularmente conhecido como o “Rapto dos sorrisos”.
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