Contos e Histórias de Tonton

Contos, histórias, poesias e muito mais coisas do mundo literário de Antonio Nunes, carinhosamente chamado de Tonton por amigos e familiares.Visite também: http://contonton.blogspot.com

5/1/09

Fenomenal…

 

 

Por Antonio Nunes

 

Era fenomenal a energia, a disposição daquele garçom magricela em nos atender. Certamente foi o mais ágil e prestativo garçom que já me serviu em toda a minha vida boêmia. E olha que já foram muitas noites adentro pelo mundo afora… Aquele sujeito tinha mais que baterias alcalinas. Parecia que não se cansava nunca.
Foi então que propus a mim mesmo um desafio. Permanecer no bar até vê-lo entregar os pontos. Vê-lo sentar-se e descansar um pouco, pelo menos. Comecei a noite com bebidas não-destiladas, para manter-me sóbrio por muito mais tempo. E o que eu ouvia era “Hulk” para cá, “Hulk” para lá… Todos o chamavam de um lado ao outro e ele atendia a todos com a mesma presteza.
Eu imaginei que aquela forma de chamá-lo se tratava de uma gozação de seus colegas em razão de sua compleição franzina ou, no mínimo, em razão de sua intensa capacidade. Mas eu estava enganado.
Muitas, mas muitas horas e garrafas vazias depois eu já quase não me aguentava mais e ele nem-nem. Continuava com a corda toda, como se tivesse começado a jornada naquele instante. Era incrível! Não, era muito mais. Era fenomenal!
E chegou a hora em que não restaram não mais do que duas ou três mesas no bar, todas ocupadas pelos mais destemidos e dispostos pinguços. Por àquela hora eu não aguentava nem mais um gole de água tônica que havia pedido como uma espécie de lavagem interior.
Chamando-o de lado, ofereci-lhe assento ao que me respondeu que estava bem de pé. Como a ansiedade me dominava a mente havia muitos minutos, questionei-lhe, educadamente, se poderia fazer-lhe uma pergunta de cunho pessoal. Ele me disse que sim. Então, tasquei de imediato:
– Qual o motivo de todos chamarem você de Hulk?
– Olha, doutor, isso é apelido de família que trago desde pequeno! – respondeu-me.
– Que curioso, explique-me melhor, por favor! – retruquei.
– A coisa é simples: quando minha mãe estava grávida de mim, ela enjoava de tudo. Diziam que vivia o tempo todo verdinha da silva. Aí o meu pai disse a toda a vizinhança que ela só podia ter um “Hulk” dentro dela. Aí a coisa pegou, sabe como é, né? – disse na maior naturalidade e sorriu. Aliás, sorrimos…
E não tinha jeito dele sentar. Ao me despedir, perguntei:
– Qual sua graça mesmo, meu bom rapaz?
– É “Deividebener”. “Deividebener”, doutor. Às suas ordens!
E saiu arrumando as mesas do lugar, tocando os últimos fregueses para a casa…

 

criado por contonton    13:48 — Arquivado em: Contos

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