
Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Naquela noite D. Glória estava agitadíssima. Afinal, fazia anos que aguardava por aquele dia. Sem dúvida, tinha tudo para ser mais que especial. E ela iria estar muito bem acompanhada. Estaria ao lado da melhor amiga, daquelas desde a infância, de sua filha e de seu melhor amigo, 50 anos mais novo e cheio de energia para acompanhá-la nas aulas de dança de salão, de hidroginástica e de tantas caminhadas ecológicas, que fazia costumeiramente apesar de suas quase oito décadas de vida.
Depois de anos sem realizar shows na cidade, Chico Buarque estava de volta e iria propiciar uma felicidade única para Gogó, como era mais conhecida pelos mais próximos. Afinal, vencera horas nas filas da bilheteria para conseguir ingressos para todos e merecia viver aqueles momentos com toda a intensidade possível. Era notória a admiração pelo compositor e mesmo pela pessoa. Poderia morrer feliz daquele dia em diante, embora nem passasse por sua cabeça um pensamento desses…
Binóculos em punho, mirava-o continuamente e cantava lado a lado com o seu ídolo cada uma das músicas do show. Sentia-o tão perto que, por vezes, esticava as mãos com se pudesse tocá-lo, acariciá-lo. Calores do ambiente à parte, cuja refrigeração já não dava vencimento a toda energia desprendida no constante balançar, Gogó passeava a língua nos lábios a cada gole de água mineral, na garrafinha plástica cuidadosamente escondida sob o casaco jeans que àquelas alturas já havia sido deixado esquecido sobre o assento, que permaneceu vazio por quase toda a noite. Será que ela imaginava beijar aqueles belos olhos azuis? Sabe-se lá o que se passava por aquela mente criativa…
Satisfeita da vida, ao sair do teatro tomou o amigo pelo braço e comentou que devia estar deixando muitas mães invejosas que estivessem a observá-los, pois pareciam mãe e filho, e muito felizes um em companhia do outro. Ele em tom de ironia retrucou: - Devem estar pensando outra coisa, como, por exemplo, a velhinha aí deve ter muito dinheiro. E sorriu. Ao que ela respondeu, de imediato, em igual tom: – Que nada, se fosse para pensarem assim, a nossa atitude seria outra! E gargalharam com o bom humor habitual que os unia em amizade, apesar da diferença de idade.
Chegando a casa, horas de cantoria e calor fizeram-na queixar-se de dores na garganta. Fez um rápido gargarejo com água aquecida e sal e jogou-se na cama, exausta da intensa folia.
No dia seguinte, como não podia deixar de ser, foi ao Dr. João Raimundo, médico amigo da família, clínico geral que já havia cuidado de três gerações da família. Falou-lhe do incômodo na garganta. Ele pediu-lhe que sentasse numa poltrona para exames e perguntou do ocorrido buscando fazer a anamnese, enquanto ajustava o foco que trazia preso à testa. D. Gogó, sem pensar muito no que dizia, respondeu-lhe: - Ah, Mundico – disse em ares de intimidade – foi uma noite inteira com o Chico Buarque. E escancarou a boca para que ele pudesse ver-lhe a garganta. Em meio ao exame, completou: − Ah, antes que me esqueça, pus um salzinho pra ver se melhorava…
Pelo que se sabe, o médico arregalou os olhos e desmaiou ali mesmo… Apagou profundamente e somente se recuperou minutos depois. Meio assustado, mas se recuperou…
Ainda bem, imagine se Dr. Raimundo morre e sai na mídia, na primeira página dos jornais, a seguinte notícia: “Chico Buarque causa a morte de médico em Recife”. Não ia ser nada fácil explicar que havia sido por causa do gogó da Gogó…