29/8/08
Coisa de criança?

Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Durante muitos anos eu fui o palhaço mais feliz que esse país já teve notícia. E a minha alegria era contagiante: transbordava de mim para a assistência. Era, como se diz, uma verdadeira transfusão de bom humor! Não tinha tristeza que resistisse e nem cara amarrada que não se desfizesse em minha presença! A magia era simplesmente irresistível…
Era, eu disse, era! Está tudo no passado, ficou no passado e que bom que a maquiagem de outrora não me deixa ser facilmente reconhecido hoje em dia!!! Não sei por que fui me recordar disso justamente agora! Pensei que tivesse esquecido, mas não tem jeito… Mesmo depois de tantos anos as recordações ainda estão bem vivas. Na mente e em meu corpo… Marcas na alma e em minha perna direita!
Bem, se você não tiver nada melhor para fazer, tome assento que eu vou lhe contar…
Eu era o palhaço Biscoitinho. Sapatos de bico mais que largo, daqueles enormes, roupa mais que colorida e com apliques de borracha imitando as tão desejadas guloseimas pelas crianças. Eu posso dizer, sem medo de errar ou de estar sendo pretensiosamente vaidoso, que era amado por elas. Diziam que eu tinha um jeito sem igual com elas. Dominava – positivamente, é claro! – a sua imaginação e corações. Eram horas de convivência para lá de maravilhosas…
Mas aí, aconteceu de cruzar o meu caminho um daqueles garotos encapetados que nem o pai, nem a mãe, nem o padre, nem o bispo ou sequer o papa, nem ninguém consegue botar freios por que foi criado sem limites. E não cabe discutir de quem foi a culpa aqui e agora… Então já imaginou, né?
Coitado de mim! Daquele dia em diante, literalmente, nunca mais fui o mesmo!
O encanto de ser palhaço acabou justamente ali, nas mãos daquele garoto. Ou melhor, nos dentes dele! Sim, isso mesmo!!! O famigerado e esfomeado do Diocleciano não se contentou com os biscoitos que eu distribuía para a platéia – e que eram patrocinados por um fabricante local – e tascou uma baita mordida na minha perna, bem onde estava colada uma bolacha cream-cracker. Eu nunca mais fui o mesmo!!!
Perdi a graça, perdi o ganha-pão, perdi o patrocinador e ainda tive as calças rasgadas por aquele monstro… Sim, por que ter uma mordida daquelas não é coisa para ser humano não. Aquilo era uma besta-fera…
Atualmente sou taxista e, graças a Deus, dirijo um veículo com câmbio automático e que com o pedal do acelerador invertido para o pé esquerdo… Bendita tecnologia!
E ainda insistem em dizer que vida de palhaço é moleza, que se ganha a vida na gozação… Imagine se fosse com você!
Ah, lembrei: hoje cedo eu transportei o técnico da seleção brasileira de futebol! Mera coincidência…
criado por contonton
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