Contos e Histórias de Tonton

Contos, histórias, poesias e muito mais coisas do mundo literário de Antonio Nunes, carinhosamente chamado de Tonton por amigos e familiares.Visite também: http://contonton.blogspot.com

31/5/08

TONTON comenta: que boa emoção!

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Que emoção e que felicidade! Não posso negar que torci imensamente por ele!

Estava digitando o texto para a "Oficina de formação de novos autores - CONTOS",  que ministrarei voluntariamente para os jovens freqüentadores  de uma biblioteca pública nos próximos meses, aqui em Recife, e assistia a grande final do SOLETRANDO - um dos mais importantes quadros da televisão brasileira, tão carentes de bons exemplos nos últimos anos.

Fiquei particularmente feliz por ver o exemplo de superação de Éder, um pobre - pobre não, quase miserável -, adolescente vindo do Vale do Jequitinhonha, uma das regiões de piores índices de desenvolvimento de nosso país. E creio que ele estava consciente do que aquele programa poderia significar para si próprio e para tantos outros, por mostrar-lhes que, mesmo nas mais severas adversidades, desejo e perseverança podem significar mudanças profundas, desde que haja a oportunidade, como a que lhe foi apontada pelo programa. E sabia bem que "aquela" era a grande chance…  Estava aparentando segurança e demonstrou, desde o início, ser o mais confiante dos finalistas. Era preciso estar preparado. Tanto o foi que venceu o certame.

Bom, vale salientar que Éder, hoje com 14 anos, começou a ser alfabetizado com 8 anos de idade e caminhava, todos os dias, cerca de 4 km para ir e outros mais para voltar da escola. E eu ainda tenho alunos que reclamam da vida…

A imagem acima, retirada da internet, registra bem as condições de vida das crianças que nascem e sobrevivem na região.

Que bom que momentos como este acontecem em nossa vida…

 

criado por contonton    16:55 — Arquivado em: Pessoais

Mofo, deu…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Mônico era o típico cara cuca-fresca, daqueles que usam calças com elástico no cós, sem cinturão, e sandálias de couro cru. Não se preocupava seriamente com nada na vida. Se tivesse um banquete para o jantar, estava bem. Se não tivesse o que comer ou se tivesse apenas um pão com ovo, também estava bem do mesmo jeito. Dizia que tinha aprendido esta lição de vida – o quase completo desapego às coisas materiais – com o seu ídolo e guru, Bob Marley. Tanto admirava o cantor jamaicano que fazia questão de cultivar uma vasta cabeleira rastafari, devidamente recoberta por uma boina de tricô branca – em sinal da paz e da fraternidade entre os homens, que tanto buscava difundir –, a qual jamais tirava da cabeça, nem para dormir.
Enquanto isso, o seu gêmeo univitelino Molibdênio, o Moli, era o oposto do irmão; agitado, de calçados sempre lustrados, cabelos impecavelmente cortados e escovados, unhas sempre bem cuidadas e devidamente protegidas por uma fina camada de esmalte transparente.
Igualmente transparente era Felismina, a mulher de Mô – pronuncia-se assim: Mô, bem aberto, como se chamasse alguém carinhosamente, de forma reduzida de amor, Mô! Entendeu? – que era a única que tinha paciência para, às vezes, desembaraçar-lhe a “mata cachosa” que trazia por sobre o pescoço.
Aí, um dia, o improvável teve lugar. Não, não era tão improvável assim, tanto que aconteceu. As tão marcantes diferenças entre os dois irmãos vieram à tona quando discutiram questões relacionadas à herança familiar.
– Não posso admitir que você administre nenhum dos negócios que nosso avô construiu com tantos anos de esforço! – disse Moli.
Ao que continuou:
– Você é um completo irresponsável! Em pouco tempo vai dilapidar o patrimônio, queimá-lo como os cigarros que fuma! Aliás, é a única coisa que você sabe e gosta de fazer!
– Você é que é e sempre foi um cara careta! Um reacionário burguesinho, que sempre se locupletou das facilidades da grana da família! –respondeu, agressivamente, irreconhecível, o outro irmão.
– Quem você acha que é para falar assim comigo? A única coisa que você deve ter na cabeça, embaixo dessa boina fedorenta, é um grande bolor de mofo suado, se não houver coisa pior! – bradou Moli.
Magoado, Mônico, foi para a casa e, contando o ocorrido para a cuidadosa amada, começou a enrolar o cigarro, acendendo-o e tragando-o calmamente enquanto ela examinava o estado da fauna capilar. Estava absorto em pensamentos e dúvidas, quando ela buscou chamar-lhe a atenção:
– Mô… Mô…!
Ele nada respondeu. Estava nas nuvens ou num quase purgatório. Estava, no mínimo, no limbo. Verdadeiramente não estava ali. Então, com a sinceridade habitual, ela advertiu-o:
– Mô… Mô…, deu!

 

criado por contonton    14:14 — Arquivado em: Contos

Ra Ra Ra… TONTON explica!

 

 

Poucos minutos atrás falei pelo telefone com uma amiga, leitora assídua deste blog e ela, em tom de reclamação, fez o seguinte comentário:

- Olha, Tonton, você tem que mudar de ambiente, de cenários para esses seus contos! - disse ela que eu estava falando muito da Argentina. Sugeriu contos passados mundo afora, pelos diversos recantos do Brasil, inclusive.

O que me restava fazer? Ra ra ra, sorrir e dar a ela as mesmas explicações que agora traga a público: calma, amigos!

A questão é que, em janeiro passado, estive uns bons dias de férias na Argentina com alguns amigos. Fizemos um grande "recorrido" por aquele país em uma van alugada. Percorremos muitos quilômetros, indo de leste a oeste, de Buenos Aires a Mendoza, passando por Rosário e Córdoba, com paradas em muitos lugarejos e, depois, voltamos em linha reta pelo charco (Rota Nacional n. 7), de oeste a leste, de volta à capital portenha. Comidas, bebidas, fotografias, amizades antigas e novas, livrarias etc., tudo sensacional! Valeu a pena! Recomendo mesmo algo semelhante. Se desejarem dicas, entrem em contato. Ok?

Como não podia deixar de ser, surgiram muitos contos - que são justamente estes que estou blogando -, e que devem ser reunidos em mais um livro intitulado "Cuentos porteños". É isso…

Adianto uma dica essencial para quem deseja pegar a estrada naquele país: dê uma olhada no site www.ruta0.com Simplesmente tudo o que necessitamos!

 

Abraços a todos, Tonton.

 

criado por contonton    13:20 — Arquivado em: Contos, Pessoais, Poesia

Santo de casa…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Era caixeiro-viajante. Tava morrendo de saudades da comidinha caseira. Comeu, comeu e dormiu…

 

criado por contonton    9:19 — Arquivado em: Contos - MM

27/5/08

Doce sedução…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Bons tempos aqueles em que vivi na Argentina, mais precisamente em Buenos Aires. Boas livrarias, bons cafés, bons restaurantes, bons vinhos, boa conversa e, claro, um grande amor! Que mais eu poderia pedir a Deus? Por aqueles dias bem que eu acreditava que Ele tinha uma sucursal por aquelas bandas. Não podia ser diferente…
Ela tinha belos olhos negros e um sorriso cativante a emoldurar -lhe o rosto branco como a neve que tanto adorávamos. A neve, realmente, é uma das poucas coisas que invejamos dos hermanos. E se não confessamos, é para que não fiquem mais confiantes do que já são. Não é verdade? Deu até para lembrar daquela infame piadinha do filho que diz ao pai que já sabe o que vai ser quando crescer: igualzinho ao genitor só para ter um filho como ele mesmo…
Bom, mas voltemos ao que interessa…
Estar em Bariloche com ela era um sonho. Caminharmos de mãos dadas pelos jardins das praças de Rosário uma festa para os sentidos. Fazermos trekking pelas montanhas de Córdoba e vermos lá do alto o mundo era uma maravilha, apesar dos três dias de caminhada acima e outros mais para baixo… Perito Moreno, que maravilha!!! Quantas boas recordações… E por cima tudo aquilo que a Capital Federal nos oferecia o ano inteiro… Para não termos a mínima chance de nos estressarmos um com o outro, logo nos primeiros meses de relacionamento fizemos um acordo de paz no qual nos comprometíamos a jamais discutir sobre futebol. E cumprimos a risca, pelo menos eu! Sabia que ia ser fácil, pois fazia anos que não ia a um estádio. A violência, o desconforto – ainda hoje prefiro o sofá, as pipocas quentinhas e a bebida gelada sem filas, além do banheiro sempre limpo e os carinhos dela juntinho de mim. Para que mudar essa situação?
Ela adorava comer doces, de todos os tipos e sabores… E, confesso sem medo de errar, eles têm doces tão gostosos quanto os nossos. Acredito que devido às imigrações européias. E ficou muito mais feliz quando apresentei-lhe os nossos. Ela amou a goiaba em calda, a cascão, o bolo de rolo, a ambrosia… Gostava tanto de doces que costumava se encontrar semanalmente com as colegas de escola numa doceria. E sempre voltava para a casa com algumas guloseimas que ganhavam vida em objetos de jogos íntimos… Bombons se transformavam em sabonetes, trufas recheadas eram como perfume para os nossos corpos e o chocolate, os chocolates… hummm!!! Que lembranças… Confesso também que nunca tive outras noites iguais em minha vida! Fazer o quê?!?
Até que um dia, ao voltar para casa, encontrei um desses entregadores ainda adolescentes, encostando a sua bicicleta ao portão do prédio. Perguntou por ela… Disse-lhe que ainda não havia chegado.. Perguntei do que se tratava. Ele me falou que era a entrega habitual de toda semana. Gelei de cima abaixo… Senti mais frio que na primeira vez que estive no Ushuaia… Pensei e conclui que deveria ser por causa dos engarrafamentos em razão da final do campeonato nacional de futebol, na Bombonera, e que tomava quase todas as ruas da cidade por aquelas horas. Claro, eu estava certo! Dei-lhe alguns pesos, disse para esperá-la e entregar-lhe em mãos o pedido. Alguns pesos a mais garantiram que ele não me encontrara…
Por anos continuamos nos amando como se nada de diferente jamais tivesse acontecido; pelo menos não nas noites em que o Boca vencia… Mas perdendo para times brasileiros…
E aqui estou eu de volta à terra do frevo e do maracatu… Fazer o quê?!?

 

criado por contonton    0:11 — Arquivado em: Contos

24/5/08

Efeitos…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Dia desses uma ex-paquera me liga e, naquele tom, meio desafio, meio provocação, de quem quer um revival dos bons momentos, me pergunta o que achara do implante de silicone nos seios que ela tinha feito poucos dias atrás…

- O que, em especial, você quer saber? - respondi-lhe.

- Que efeito sobre o visual, por exemplo? Mas, antes que eu pudesse dizer algo, ela se antecipou e completou…

- Quem viu gostou e tá querendo pôr igual! - disse ela referindo-se às amigas em comum, todas mulheres.

Aí, em tom de brincadeira, respondi:

- Então não vou querer ver não, pra não correr esse risco, sabe? - e segurei o riso.

Poucos dias depois soube que ela fazia comentários horrorizados sobre mim… Acho que foi efeito de muita àgua oxigenada tão próximo ao cérebro… Pois é, perigo em dose dupla: loura siliconada!

 

criado por contonton    18:01 — Arquivado em: Contos - MM

Seria assim?

 

 

Seria assim nos anos dourados…

 

Acendeu o cigarro, deu duas tragadas bem fortes no cigarro, seguidas de uma única baforada, acelerou profundamente o carro e deixou-se cair do alto do precipício…

 

Seria assim nos anos rebeldes…

 

Bebeu, quase de um gole único, toda a cuba libre. Acelerou a moto até o fim e soltou a embreagem bruscamente. A moto empinou e ele fez roleta russa em pleno cruzamento…

 

É assim nos dias atuais…

 

Pra que viver se não consigo ter o que desejo? F…-se o mundo. Bebo tudo, fumo, trago, cheiro… Exploda-se o mundo. E ainda levarei comigo outros que nada tinham a ver com essa história…

 

criado por contonton    15:09 — Arquivado em: Contos - MM

Ligações perigosas…

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Aquele foi um ano terrível. Em poucos meses faleceram cinco pessoas na família. Foram velados e enterrados todos numa mesma cripta do mesmo cemitério. Daí passados alguns dias, uma tia minha resolve ir ao campo-santo para dar um agrado ao coveiro sempre tão solícito que, visivelmente comovido com a generosidade daquela que o visitava, tentou retribuir a atenção a ele dispensada:

- Oh, D. Fulaninha, que bom vê-la aqui de novo! Há quanto tempo!!!

 

criado por contonton    14:55 — Arquivado em: Contos - MM

Pelas tardes de uma criança…

 

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Enquanto montava cuidadosamente o sanduíche de bolachas cream-cracker e fatias de doce de goiaba finamente cortadas - para render mais -  e ainda me escorrendo pela face os suores da partida de futebol em andamento, imaginava em que time, efusivamente saudado entre aplausos e fogos de artifício, faria  a minha estréia como jogador profissional…

 

criado por contonton    14:36 — Arquivado em: Contos - MM

20/5/08

Seda ou cetim?

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Éramos amigos inseparáveis, verdadeiramente inseparáveis. Dizíamos que éramos amigos de fraldas. Ou seja, estávamos um presente na vida do outro desde sempre. Nossas famílias moravam em casas defronte uma à outra. Apenas uma estreita rua, na qual vivemos tantas aventuras e inúmeras horas foram devidamente gastas em memoriais partidas de futebol, separavam as nossas casas protegidas por frágeis portas e muros de dimensões diminutas. Mesmo assim, nos prostrávamos sobre eles para perguntarmos o cardápio do dia na casa do outro.

- E aí, qual é o rango de hoje aí? - perguntava um.

- É feijão verde com farofa e carne de sol! - respondia o outro.

- De primeira! Tô indo… - e íamos à mesa do outro, sendo recebidos como um membro regular da família, em minutos, sem a menor cerimônia.

- E hoje, o que tem? - berrava de um lado.

- Macarrão com frango assado! - gritava o outro no mesmo tom.

- Com suco de quê? - claro que essa liberdade tinha que existir…

- De maracujá, bem gelado! - e o outro não tardava em tomar lugar entre os familiares, depois de lavar devidamente as mãos, rigorosamente examinadas pela mãe do outro…

Então, um dia, como acontece entre tantas pessoas, nos desentendemos. Mas, nos desentendemos de um jeito irreparável, irremediável. E foi para sempre. Discutimos se era seda ou cetim! Podia ter sido a respeito do forro dos paletós ou coisa parecida. Entretanto, divergimos, ou melhor, quase fomos às vias de fato, acerca do tecido da roupa íntima da primeira mulher que vimos trocar de roupa frente aos nossos olhos. Claro que o fizemos juntos, de longe, binóculos em punho. Cada qual teimava em fazer prevalecer a sua opinião…

Dias depois os pais dele mudaram-se do bairro e ele foi junto, como tinha que ser. Eu só não sabia por que e imaginaria, durante muitos anos, que ele guardara mágoas minhas…

Dia desses, muitos anos depois, recebi a notícia, confirmada pela leitura do jornal. Ele falecera. Compareci ao seu velório. E de mãos junto ao féretro, pude confirmar:

- Olha amigo - fechei os olhos recordando e em silêncio disse-lhe do fundo do coração -, você tem razão: aquilo lá era seda. Isso aqui, que forra a tua última morada é que é cetim!

Fiz as minhas orações e retornei a casa, aliviado de uma pretensa culpa de mais de 60 anos…

 

criado por contonton    1:50 — Arquivado em: Contos
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