
Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Sábado, fim de tarde. Estava com os pés na areia, em um bar, à beira-mar de Maracaípe. Aquele era um daqueles dias em que você, sem querer, mistura alegria e, ao mesmo tempo, um pouco de melancolia em razão do ambiente que vai lhe trazendo uma sensação de nostalgia ao entardecer e do álcool que vai lhe dominando a mente sorrateiramente. Foi então que, alguns caranguejos, caldinhos de peixes e de mariscos, bem como muitas cervejas depois, confessei ao amigo com quem dividia o tira-gosto e jogava conversa fora havia horas:
– Pois é, meu caro, resolvi casar com ela! De uma vez para sempre!
– Pô, Tonton, já não era sem tempo! – disse-me ele com um sorriso nos lábios ao dar-me um aperto de mão característico dos bons amigos e duas tapinhas no ombro. Coisas de homem, sabe como é, né?
– É, fazia tempo que eu tinha que me decidir. Estava mais que na hora de dedicar-me a ela com exclusividade. De transformá-la, com todo meu empenho, na razão de meu viver! –falei-lhe, com toda a sinceridade, do íntimo de minha alma.
– É verdade! Manda brasa, você merece ser feliz! Desejo, de coração, que você tenha acertado em sua escolha… E que venham muitos frutos!
– Com certeza! Farei todo o possível para que a produção seja bem grande!
E gargalhamos juntos… – típico de bons amigos, para quem bastam meias palavras, porque participam de nossos sonhos, incentivando-nos a dar vazão aos nossos projetos mais pessoais. Tomamos mais umas duas saideiras e fomos cada qual para o seu lado. Ele para a casa de parentes ali por perto mesmo e eu regressei ao Recife.
Nove da noite. O telefone toca. Uma ex-namorada. Convidava-me para sair, me apanharia dentro de meia hora. Queria reviver alguma coisa… Dois minutos depois, mensagem de texto no celular. Outra ex, dizia estar com saudades de nossos momentos maravilhosos e… Mal acabei de ler a mensagem e lá estava o danado tocando em minhas mãos. Atendi. Uma outra antiga namorada. Disse estar tomando um delicioso banho de óleos em uma banheira repleta de pétalas de rosas, com o ambiente devidamente iluminado por velas aromáticas… Pediu-me que aproximasse mais o aparelho do ouvido e eis que surge uma música ao fundo … Boas recordações!!!
Mal entro no banho e o interfone dispara. O corpo completamente ensaboado não me permite atendê-lo. Apresso-me. Baterem à minha porta por aquelas horas tinha que ser importante. Parecia sê-lo, pelo menos para aquela ex-namorada que, abrigando-se da chuva que estava a cair, observava o acender e o apagar das luzes de meu apartamento. Sabia que havia alguém em casa. Não deu para dizer que não. Ela interfonou mais uma vez e anunciou-me que estava subindo…
Nas próximas duas semanas, todos os dias surgiram convites para revivals. Eu que estava sozinho havia alguns meses estava sem entender o porquê de tanta chuva em minha horta. A produção literária até teve que ficar em segundo plano… por alguns dias…
Aí, como não poderia deixar de ser, teve um dia que a agenda complicou. E quando eu digo que complicou é que complicou mesmo! Foi chegando uma, chegando outra… Ao total, oito delas aparecerem em minha casa ao mesmo tempo! Injuriada com a cena inusitada, uma delas me perguntou:
– E então, cretino, com qual de nós você vai se casar?
– Casar, eu? – disse com a maior das inocências.
– Claro! Porque você acha que estamos todas aqui? Falo por mim, mas creio que seja unânime a idéia. Estou errada meninas? – disse fazendo um passeio de 360 graus ao redor de si mesma…
– Isso mesmo! – completaram quase em uníssono as demais.
– Eu jamais disse que iria me casar com qualquer de vocês? De onde tiraram esta idéia maluca?
– Deixe de ser fingido! Quer dizer que não é com nenhuma das presentes? É com uma outra que nem está aqui? Salafrário! Deve ser uma que não te conhece bem! Uma que não saiba de seus dons de sedutor…
– Calma, calma… Pra que toda essa agressividade? E que história é essa? Eu não vou me casar mesmo, nem com vocês e nem com ninguém! E ponto final!
– Não mesmo? – perguntou-me com ares de esperança uma outra que já fazia ares de choro no canto da sala.
– Eu bem que disse à prima da Mariana que ela tinha ouvido errado? – disse outra.
– Quem é essa tal prima de Mariana e o que ela tem a ver com tudo isso? – perguntei eu.
– É uma paulista que estava em Maracaípe, de férias alguns dias atrás e que te viu por lá! – alguém explicou.
– Tem certeza que era eu? – naquele momento, verdadeiramente, eu não estava a entender nadica de nada do que se passava.
– Ela te reconheceu: alto, olhos esverdeados, os inseparáveis óculos e sempre com um bloquinho de anotações em mãos. Era você! Confesse! Ai, que descarado! – disse-me de dedo em riste uma delas, quase rubra de tanta raiva em suas palavras.
– Olha, eu realmente estive lá um dia desses, mas não estava acompanhado de nenhuma mulher.
– Era ele, eu não disse! – falou uma delas, quando todas já se aproximavam, fechando o cerco sobre mim.
– Peraí, que acusação descabida é essa? Eu estava lá com um amigo, tomando cerveja e comendo alguma coisa. Sem nenhuma mulher por perto. E tem mais, eu sou solteirinho, não devo nada de satisfações…
– Foi justamente pra ele que você falou que você falou que ia se casar! Vai negar que disse isso pra ele, vai ter coragem com todas nós aqui reunidas bem na sua frente, vai?
Aí a ficha caiu… e eu soltei uma fantástica risada…
– Agora me lembro…
– Vai tentar negar, as suas próprias palavras? Ai, que nojento! – disse num acesso de raiva uma delas.
– Olha, eu falei que ia me casar sim… – pausei e mirei cada uma delas bem no fundo de seus olhos, para ver a mudança de semblante – mas, era com a literatura… – pausei e continuei – pois decidi levar a sério o meu lado “E”, de escritor… Vocês sabem como ela é importante para mim!
Suspiros aliviados, rostos enrubescidos de vergonha, pedidos de desculpas, alguns afagos… Então, uma delas saiu-se com esta:
– Olha, seria uma lástima se você tivesse casado sem nos avisar, sem nos dizer nada…
– Vocês sempre vão estar no meu coração! Afinal, vocês fazem parte de minha inspiração…
E foram saindo uma a uma, até que fiquei sozinho outra vez. Não tardou e todo o processo reiniciou. Cada qual delas utilizando seus recursos de sedução. Dos mais simples aos mais improváveis. Todas querendo marcar um encontro secreto e que, com sorte, poderia ser o marco inicial para me levar ao cartório…
Afinal, toda mulher, em sua imensa sabedoria, deseja ser o último amor de um homem… Resta saber se ele concorda ou não com isso… Uma lástima…
Pelo menos, para mim, toda esta história valeu alguma coisa além… Surgiram muitos contos… Qualquer dia desses contos pra vocês, talvez não com tantos detalhes… Quem sabe?