Contos e Histórias de Tonton

Contos, histórias, poesias e muito mais coisas do mundo literário de Antonio Nunes, carinhosamente chamado de Tonton por amigos e familiares.Visite também: http://contonton.blogspot.com

30/4/08

O violão…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Sabe, acho que fui um dos últimos daquela geração – de uns 30 anos atrás – em que os pais se preocupavam em dar uma formação o mais completa possível aos seus filhos. Talvez seja resquício de uma trajetória familiar sem muitos recursos financeiros, mas plena de coisas imateriais que ninguém jamais conseguirá tirar de você. E isso, é claro, além das aulas de línguas desde muito cedo, inclui, também, uma educação musical. Lembro-me bem de algumas aulas no Conservatório –onde se deu minha iniciação – e as aulas particulares de piano, onde a professora de olhos muito claros era a atração principal.
Anos mais tarde, tive aulas particulares de violão. Embora desejasse muito ter o objeto – cujas formas até hoje me encantam – jamais fui presenteado com um por meus pais e nem por mim mesmo, desde que ganhei, por esforço próprio, os meus primeiros cobres buscando alguma independência financeira, ministrando aulas de inglês, matemática e física. Sábia decisão deles e minha. Preferi comprar livros e ainda os prefiro. O violão estaria encostado num canto qualquer, adornando o espaço onde se encontrasse…
Já os livros, fazem-me diferente, sendo o mesmo a cada leitura. Inspiram-me, mais e mais, a fazer novas composições. Nas pautas das páginas elaboro as minhas canções populares, sem a pretensão de um dia qualquer dar lugar a grandes sinfonias. Ainda hoje tenho em mente que as interrogações são parentes próximas da clave de sol. Talvez seja o vibrar das cordas e da percussão, aliado à força dos metais que libere o devaneio cuja regência se dá com a caneta em punho…
E para completar a magia dessa transmutação, que em realidade é uma celebração, alguns de meus escritos foram musicados e ganharam o mundo na boca do povo… Nada mais natural!

 

criado por contonton    20:32 — Arquivado em: Pessoais

Para sair do lugar…

 

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Faz alguns anos que compus estes versinhos, um frevinho para o carnaval. Uma convocação para que todos saiam do lugar e participem da brincadeira. Diz assim:

 

Aí galera, o carnaval chegou,

Não fique na espera, se o bloco não passou,

Vá se juntar a ele, seja lá como você for,

Te quero aqui comigo qu’esse bloco é só amor,

 

E a turma da calçada também tem que pular,

Ficar parado ou sentado assim não dá,

A turma aqui é toda de alegria,

E quer você caindo na folia!

criado por contonton    20:19 — Arquivado em: Pessoais, Poesia

CONCURSO CONTONTON - PARTICIPE!

 

 

Prezados frequentadores deste humilde blog,

 

Está lançado o desafio! Acabo de escrever o conto "Gororoba…" que narra algumas desventuras gastro-etílico-estomacais  - esse gastro aí é de gastronomia - de um jovem do interior que, pela primeira vez, tem a possibilidade se fartar em um restaurante  self-service de uma cidade grande e com o que jamais havia se deparado em toda a sua vida.

Todavia, ainda não consegui localizar uma imagem ideal para ilustrar este conto no blog. Como vocês já devem ter percebido, para cada conto uma imagem é cuidadosamente escolhida e capturada na internet.

Eis o desafio: enviar-me sugestões de imagens que se apliquem ao caso em questão. Ao vencedor do concurso será enviado um prêmio da melhor qualidade. Pode acreditar! Mãos à obra! Aguardo suas sugestões…

 

criado por contonton    17:52 — Arquivado em: Contos, Contos - MM, Pessoais

O bebum…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Natanael era um bebedor prevenido, metódico ao extremo. Ao chegar ao bar, de imediato, perguntou  ao garçom o horário de funcionamento. A resposta foi que o local não fechava. Funcionava 24 horas – o ideal. Chamou o gerente e entregou-lhe um cartão de uma agência de táxis. Bastava ligar e informar onde ele estava que em poucos minutos o apanhavam e o conduziam em segurança para a casa.
Antecipou-se e pagou uma grade inteira de cervejas e alguns tira-gostos. Sentou-se, bebeu e degustou calmamente os petiscos. Como não podia deixar de ser, em certa hora teve de “tirar a água do joelho”. Meio trôpego dirigiu-se ao banheiro. Enorme banheiro como nunca havia visto. Tinha 32 mictórios, todos impecavelmente limpos e com encostos para cabeça em cada um deles. Você – se do sexo masculino, é claro! – chegava, metia a cabeça na almofada, relaxava e esvaziava tranqüilo.
Três dias depois ele ainda estava lá, repetindo todo o processo. Pedia o cardápio, fazia as escolhas, efetuava o débito em conta corrente e se deliciava como se estivesse começando a noite naquele instante. Já viu a cara de felicidade de alguém que dá os primeiros goles em uma bebida bem gelada numa noite quente? Tem um sorriso nascente que se transforma em satisfação, não é verdade? Foi quando o dono do bar, notificado da contínua permanência do cliente, tentou persuadi-lo a não continuar com a bebedeira. Estava preocupado que lhe fosse imputada alguma responsabilidade com um possível efeito danoso da tanta bebida que lhe serviam nas últimas 72 horas. Então, questionou-lhe:
– Meu caro, o senhor não acha que já está na hora de fechar a conta?
– Não se preocupe! Pago tudo antecipado, pode conferir com os seus funcionários. – respondeu ele.
– Não, não é isso! Em realidade, estou preocupado com a sua saúde.
– E eu estou preocupado que ainda falta testar uns três mictórios… – disse com o mais irônico dos sorrisos e continuou a beber como se nada daquilo tivesse acontecido.

 

criado por contonton    17:41 — Arquivado em: Contos

28/4/08

Efeito CAPILOTON…

Ra ra, ao que tudo indica,  o tratamento capilar realizado por Braga fez efeito!

CAPILOTON no Tonton… Mas, quem viu - amiga da onça - disse que eu precisava de uma chapinha. Quanta maldade!  

 

 

criado por contonton    21:08 — Arquivado em: Pessoais

23/4/08

Ela feia, ele horroroso…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Diziam que jamais encontrariam parelha em outros corações. Mas, nem precisava… Sua união, boa vontade, respeito e dedicação um ao outro eram de tal intensidade que a felicidade e a harmonia decorrentes eram de causar inveja aos mais belos casais televisivos e das telas do cinema de todo o mundo. Afinal, não viviam nem um pouco de aparências…

criado por contonton    7:43 — Arquivado em: Contos - MM

22/4/08

Swing…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Daniel e eu éramos amigos inseparáveis. Amigos de copo e de cruz. Dividíamos quase tudo. Rachar uma conta era muito aquém de uma obrigação. Era, antes de qualquer coisa, um prazer por significar que estávamos juntos e que havíamos compartilhado mais algumas horas de nossas vidas. Mas chega uma hora que cada qual tem que seguir o seu próprio caminho…
Por ser mais velho, casei-me antes que ele. Planejava com a minha esposa termos filhos, pelo menos o primeiro, com cerca de três anos ou um pouco mais de casados. Continuava encontrando-me com o Daniel, afinal a amizade verdadeira não se acaba com o casamento. Ele era o meu álibi para tomar umas cervejas com os amigos e para as partidas de futebol nas noites de 5ª feira. Foi numa noite dessas, após o jogo, que ele me falou que engravidara a noiva, por sinal muito amiga de minha esposa, antes das núpcias. O sujeito era mesmo apressadinho… Meses depois estava nascendo o rebento.
E como amigo é pra essas coisas, no dia seguinte ao parto, lá estava eu com a patroa visitando o recém nascido. Já estávamos no quarto da maternidade quando adentra ao recinto a tia-avó da recente genitora. D. Coló, Colombina, com seus quase 90 anos – pelo menos era o quanto ela deixava divulgar, oficialmente – e fama de ser uma velhinha pervertida, a quem não tínhamos tido, ainda, a oportunidade de conhecermos pessoalmente.
– Tia Coló, esta é Natália, a minha melhor amiga! Será a madrinha de meu filho! – disse a orgulhosa mamãe. E a velhinha, ainda próxima à porta, saudou-a com um breve aceno.
Aí ela se encaminhou para junto da sobrinha que estava recostada em uma cadeira hospitalar ao fundo do quarto e – como eu estava em meio ao caminho –, olhando de cima para baixo e de baixo para cima, estendeu-me a mão, dizendo-me:
– Parabéns, garanhão! – e piscou-me um dos olhos fazendo caras e bocas, como se eu fosse o pai da criança.
Ao perceber o equívoco da sacana titia, Isabela corrigiu:
– Não, tia. Este não é o meu esposo! Ele é casado com Natália. O pai de meu filho é Daniel, este aqui ao lado.
– Ah, muito prazer! – falou D. Coló, agora se dirigindo ao correto pai.
Repetiu o gesto de olhá-lo de cima para baixo e vice-versa. E soltou, sem pensar, a quase centenária senhora:
– Pelo menos é um poneizinho reprodutor! – entreolhamo-nos, cada qual com o seu cônjuge.
Então, querendo contornar qualquer pretenso mal-estar, fazer-se simpática e corrigir a gafe em consolidação, perguntou à Natália:
– E vocês, quantos filhos?
– Ainda não temos nenhum. Estamos tentando! – respondeu-lhe, também meio sem pensar nas conseqüências daquela simples frase, pobrezinha.
Foi então que fomos totalmente surpreendidos:
– Posso sugerir uma coisa, meus filhos? – saiu-se com esta, de imediato, D. Coló, fitando-nos com feições incrivelmente pós-ninfomaníacas, mordendo os próprios lábios.
Como fizemos silêncio, afinal não tínhamos nada a dizer nem a opor – até o momento–, ela continuou:
– Que tal um swing? – deixando-nos atônitos com um sorriso maroto no rosto, dos mais debochados do mundo, cutucando Daniel com o cotovelo. E reforçou a sugestão:
– Hein, hein?!?
Pelo jeito de falar, acreditava firmemente no que estava propondo. E foi abrindo bem os olhos, esticando as sobrancelhas, quase os fazendo saltar das órbitas…
Saberia, mesmo, do que estava falando?!?

 

 

criado por contonton    19:46 — Arquivado em: Contos

19/4/08

Lástima…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Sábado, fim de tarde. Estava com os pés na areia, em um bar, à beira-mar de Maracaípe. Aquele era um daqueles dias em que você, sem querer, mistura alegria e, ao mesmo tempo, um pouco de melancolia em razão do ambiente que vai lhe trazendo uma sensação de nostalgia ao entardecer e do álcool que vai lhe dominando a mente sorrateiramente. Foi então que, alguns caranguejos, caldinhos de peixes e de mariscos, bem como muitas cervejas depois, confessei ao amigo com quem dividia o tira-gosto e jogava conversa fora havia horas:
– Pois é, meu caro, resolvi casar com ela! De uma vez para sempre!
– Pô, Tonton, já não era sem tempo! – disse-me ele com um sorriso nos lábios ao dar-me um aperto de mão característico dos bons amigos e duas tapinhas no ombro. Coisas de homem, sabe como é, né?
– É, fazia tempo que eu tinha que me decidir. Estava mais que na hora de dedicar-me a ela com exclusividade. De transformá-la, com todo meu empenho, na razão de meu viver! –falei-lhe, com toda a sinceridade, do íntimo de minha alma.
– É verdade! Manda brasa, você merece ser feliz! Desejo, de coração, que você tenha acertado em sua escolha… E que venham muitos frutos!
– Com certeza! Farei todo o possível para que a produção seja bem grande!
E gargalhamos juntos… – típico de bons amigos, para quem bastam meias palavras, porque participam de nossos sonhos, incentivando-nos a dar vazão aos nossos projetos mais pessoais. Tomamos mais umas duas saideiras e fomos cada qual para o seu lado. Ele para a casa de parentes ali por perto mesmo e eu regressei ao Recife.
Nove da noite. O telefone toca. Uma ex-namorada. Convidava-me para sair, me apanharia dentro de meia hora. Queria reviver alguma coisa… Dois minutos depois, mensagem de texto no celular. Outra ex, dizia estar com saudades de nossos momentos maravilhosos e… Mal acabei de ler a mensagem e lá estava o danado tocando em minhas mãos. Atendi. Uma outra antiga namorada. Disse estar tomando um delicioso banho de óleos em uma banheira repleta de pétalas de rosas, com o ambiente devidamente iluminado por velas aromáticas… Pediu-me que aproximasse mais o aparelho do ouvido e eis que surge uma música ao fundo … Boas recordações!!!
Mal entro no banho e o interfone dispara. O corpo completamente ensaboado não me permite atendê-lo. Apresso-me. Baterem à minha porta por aquelas horas tinha que ser importante. Parecia sê-lo, pelo menos para aquela ex-namorada que, abrigando-se da chuva que estava a cair, observava o acender e o apagar das luzes de meu apartamento. Sabia que havia alguém em casa. Não deu para dizer que não. Ela interfonou mais uma vez e anunciou-me que estava subindo…
Nas próximas duas semanas, todos os dias surgiram convites para revivals. Eu que estava sozinho havia alguns meses estava sem entender o porquê de tanta chuva em minha horta. A produção literária até teve que ficar em segundo plano… por alguns dias…
Aí, como não poderia deixar de ser, teve um dia que a agenda complicou. E quando eu digo que complicou é que complicou mesmo! Foi chegando uma, chegando outra… Ao total, oito delas aparecerem em minha casa ao mesmo tempo! Injuriada com a cena inusitada, uma delas me perguntou:
– E então, cretino, com qual de nós você vai se casar?
– Casar, eu? – disse com a maior das inocências.
– Claro! Porque você acha que estamos todas aqui? Falo por mim, mas creio que seja unânime a idéia. Estou errada meninas? – disse fazendo um passeio de 360 graus ao redor de si mesma…
– Isso mesmo! – completaram quase em uníssono as demais.
– Eu jamais disse que iria me casar com qualquer de vocês? De onde tiraram esta idéia maluca?
– Deixe de ser fingido! Quer dizer que não é com nenhuma das presentes? É com uma outra que nem está aqui? Salafrário! Deve ser uma que não te conhece bem! Uma que não saiba de seus dons de sedutor…
– Calma, calma… Pra que toda essa agressividade? E que história é essa? Eu não vou me casar mesmo, nem com vocês e nem com ninguém! E ponto final!
– Não mesmo? – perguntou-me com ares de esperança uma outra que já fazia ares de choro no canto da sala.
– Eu bem que disse à prima da Mariana que ela tinha ouvido errado? – disse outra.
– Quem é essa tal prima de Mariana e o que ela tem a ver com tudo isso? – perguntei eu.
– É uma paulista que estava em Maracaípe, de férias alguns dias atrás e que te viu por lá! – alguém explicou.
– Tem certeza que era eu? – naquele momento, verdadeiramente, eu não estava a entender nadica de nada do que se passava.
– Ela te reconheceu: alto, olhos esverdeados, os inseparáveis óculos e sempre com um bloquinho de anotações em mãos. Era você! Confesse! Ai, que descarado! – disse-me de dedo em riste uma delas, quase rubra de tanta raiva em suas palavras.
– Olha, eu realmente estive lá um dia desses, mas não estava acompanhado de nenhuma mulher.
– Era ele, eu não disse! – falou uma delas, quando todas já se aproximavam, fechando o cerco sobre mim.
– Peraí, que acusação descabida é essa? Eu estava lá com um amigo, tomando cerveja e comendo alguma coisa. Sem nenhuma mulher por perto. E tem mais, eu sou solteirinho, não devo nada de satisfações…
– Foi justamente pra ele que você falou que você falou que ia se casar! Vai negar que disse isso pra ele, vai ter coragem com todas nós aqui reunidas bem na sua frente, vai?
Aí a ficha caiu… e eu soltei uma fantástica risada…
– Agora me lembro…
– Vai tentar negar, as suas próprias palavras? Ai, que nojento! – disse num acesso de raiva uma delas.
– Olha, eu falei que ia me casar sim… – pausei e mirei cada uma delas bem no fundo de seus olhos, para ver a mudança de semblante – mas, era com a literatura… – pausei e continuei – pois decidi levar a sério o meu lado “E”, de escritor… Vocês sabem como ela é importante para mim!
Suspiros aliviados, rostos enrubescidos de vergonha, pedidos de desculpas, alguns afagos… Então, uma delas saiu-se com esta:
– Olha, seria uma lástima se você tivesse casado sem nos avisar, sem nos dizer nada…
– Vocês sempre vão estar no meu coração! Afinal, vocês fazem parte de minha inspiração…
E foram saindo uma a uma, até que fiquei sozinho outra vez. Não tardou e todo o processo reiniciou. Cada qual delas utilizando seus recursos de sedução. Dos mais simples aos mais improváveis. Todas querendo marcar um encontro secreto e que, com sorte, poderia ser o marco inicial para me levar ao cartório…
Afinal, toda mulher, em sua imensa sabedoria, deseja ser o último amor de um homem… Resta saber se ele concorda ou não com isso… Uma lástima…
Pelo menos, para mim, toda esta história  valeu alguma coisa além… Surgiram muitos contos… Qualquer dia desses contos pra vocês, talvez não com tantos detalhes… Quem sabe?

criado por contonton    20:58 — Arquivado em: Contos

18/4/08

A su disposición…

 

 

 Por Antonio Nunes Barbosa Filho

Para Cristina Huggins, Teresa Cavalcanti e Celine Dalaire

 

Teobaldo era um sujeito simpático. Tinha no largo sorriso, sempre presente no rosto, e uma infinita disposição para ouvir e prestar a sua opinião sincera àqueles que o procuravam suas características mais marcantes. Afinal, algum encanto em sua alma ele tinha que ter. Segundo o próprio, para compensar a ausência de dotes físicos. Isto é, a pequena estatura, a barriga proeminente, a quase completa ausência de cabelos e os pesados óculos que lhe emolduravam o rosto, devido a muitos graus de miopia.
Ademais, Téo – como era mais conhecido entre os amigos – tinha um dom especial. Filho de uma professora primária que muito o incentivava, desde muito pequeno, desenvolveu uma extraordinária aptidão para as línguas estrangeiras. Lia, falava, escrevia, enfim, expressava-se, fluentemente, em pelo menos 12 idiomas, inclusive em grego, russo e javanês. Era um verdadeiro poliglota. Todavia, ainda não tinha tido a chance de estar imerso na língua e cultura de outros povos. Era, talvez, o maior sonho de sua vida…
Vindo dos rincões do sertão nordestino, onde as rádios do exterior eram captadas em ondas curtas, chegou ao Recife poucos anos atrás e encontrou na internet o espaço apropriado para desenvolver ainda mais a sua magnífica habilidade. Algum tempo depois de sua chegada nesta cidade já estava contratado para ensinar alemão, italiano, inglês e francês nas melhores escolas da região metropolitana. Era um verdadeiro fenômeno! E tinha tal capacidade de comunicação que não tardou para que a sua fama se espalhasse e começasse a ser disputado como professor. Com algum dinheiro extra em mãos, tratou, tão logo quanto possível, de adquirir novos óculos, mais leves, mais modernos e que até lhe conferiram uma aparência mais jovial.
Foi então que a “Urbi et Orbi”, buscando contratá-lo com exclusividade, fez-lhe uma proposta irrecusável. O dobro de todos os seus rendimentos atuais e uma viagem mundo afora, por seis meses, sendo cada mês em um país de língua distinta, com tudo pago – passagens, hospedagens e algumas despesas mais incluídas – além, é claro, da remuneração integral no período, uma vez que estaria a serviço. Tudo isso em troca de um contrato de exclusividade por apenas cinco anos. Pense numa proposta imbatível!
Para dar início ao périplo, Téo rumou para Buenos Aires e lá iria passar um período desde o início do ano até pouco depois do carnaval – aliás, bem diferente daquele a que estamos acostumados no Brasil, para não dizer inexistente se comparado ao nosso. Todavia, desejoso de aproveitar um pouco daquele período festivo, Téo buscou no guia cultural da cidade, onde, supostamente, teria a oportunidades de conhecer tal traço daquele povo e de seu modo de ser, que tanto apreciava. Tudo o que conseguiu foi um espetáculo a ser realizado num galpão de uma fábrica abandonada num subúrbio muito distante do centro da cidade a partir de um pequeno anúncio colado em um posto próximo a uma estação do metrô. Mas, como estava disposto, lá se foi, sozinho, conhecer os “Tambores do transe”, cuja propaganda dizia assim: “Você nunca mais vai querer saber do Olodum e de outros ritmos da Bahia”. Quanta pretensão!!!
Bom, bairrismos à parte, ele chegou ao lugar da apresentação com umas duas horas de antecedência. Queria o observar as pessoas, apreender o máximo do comportamento dos nativos e enriquecer o seu vocabulários com gírias e expressões locais. Parecia ser aquele o lugar adequado para tanto. Tudo se encaixava perfeitamente em seus planos…
Iniciado o show, ao entardecer, rolando muita bebida e em presença de um  um denso fumaceiro no qual estava imerso, em poucos momentos Téo se sentiria arrependido da escolha que fez para o dia, já que era dos últimos na capital portenha. Quanta saudade das alfaias… – Se eles chamam isso de festa, imaginem a festança que fariam se presenciassem a apresentação de um maracatu! – imaginou.
Mas, a batida seguia invariável, repetindo-se em ciclos intermináveis… E fazendo-se acompanhar do álcool e de vapores, do calor e de outras coisas mais, era quase impossível não entrar em transe. Realmente, tinham razão os “hermanos”…
De repente, aproximou-se dele uma mulher alta, de pele claríssima, olhos azuis da cor do mar (lentes, claro!), cabelos dourados, com um decote generoso que permitia antever as formas voluptuosas de um implante de silicone bem sucedido e com um sorriso mais que branco – no qual se destacava um pequeno brilhante colado em um dos dentes. E não deu em outra: o ingênuo lingüista foi seduzido por aquela visão…
Ele dirigiu-lhe a palavra:
– Hola, que tal? Soy Téo, de Brasil, encantado!
– Hola, soy Roseta, a su entera disposición…
Divertiram-se, pelo menos durante o início da noite…
Pelo que eu soube, ele desistiu do resto da viagem ali mesmo. Não seguiria adiante. Nem queria ter outras decepções tão grandes quanto aquela…

criado por contonton    11:48 — Arquivado em: Contos

17/4/08

Nova caricatura…

 

Falta de cabelos à parte, Braga me presenteou com outra caricatura (corrigindo o absurdo! rs!). Quem viu, disse que este Balu ficou mais interessante que o outro. Quanto ao TONTON, que me dizem?

 

criado por contonton    10:45 — Arquivado em: Sem categoria
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