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Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Sendo naturalmente retraído, desde criança, gosto de me pôr a observar as outras pessoas. Fazia isso com os mais velhos, quando ia à feira, ao supermercado e, talvez, por essa razão, tenha me tornado adulto um pouco mais cedo do que devia, além de desenvolver um apurado senso de percepção a respeito do comportamento humano. Com a falta de idade e de experiência de vida contrapondo-se às observações, como parte natural do aprendizado, sempre me restava algumas dúvidas. Acho que isso é bem normal, por que algumas ainda persistem. Afinal, quem é atinge a maturidade por completo?
Bem, mas quem eu gostava realmente de observar eram os colegas de classe. Fazia isso desde o primário e consolidei o aprendizado acerca da condição humana no ginásio e no segundo grau, por que os conseguia entender – quase que por completo – em sua maneira de agir e na forma de pensar. Quantas e quantas vezes me pus em seus lugares... Na imaginação, quero dizer... Na 8ª série, já com nossos 13 ou 14 anos, havia o Pedrinho, tímido que só, coitado, mas apaixonado pela Evelyne, a garota mais bonita da escola. Tinha também o Luisinho, o almofadinha, por quem todas as meninas suspiravam, com o cabelo sempre arrumadinho. Pude observar o quanto ela esnobou o primeiro e quanto ela se decepcionou com o segundo, que se achava bom demais pra ela.
E num piscar de olhos, trinta anos se passaram...
Ela casou, teve filhos, descasou e, por um desses acasos do destino, um dia, reencontrou Pedrinho. Trocaram telefones, marcaram para sair. Outras vezes se encontraram, sorriram e confessaram que apreciaram o acontecido.
Dias depois, tudo se repetiu e ela entregou-se a ele confessando toda a carência de há tanto tempo não ser amada, acariciada, tratada com a dignidade e a delicadeza que um homem deve a uma mulher. Sentiu-se rainha e fez-se apaixonada. Ele, por razoes de trabalho, foi transferido para outra cidade. Ela nunca se sentiu tão abandonada...
Mas não pôde conter o riso quando viu o Luisinho de cabelo tingido e escovado, com o personal trainer a tiracolo – para qual fosse o lado, lá ele ia junto... Como estava mudado! – supostamente pensaria ela. Eu diria: nem tanto!
Não me disseram nada, nem foi de ouvir dizer. Vi tudo o que aconteceu. Eles é que não me viram, pois eu continuava calado, recolhido ao meu lugar, com o caderninho postado, trazendo tudo devidamente anotado, personagens e enredos para o melhor da história ser contado... como parte do ofício de ser escritor.

criado por Tonton
10:52:41

Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Lá para as bandas do Brejo Paraibano – e para quem não sabe, vou dizer aqui que é uma microrregião do agreste do Estado da Paraíba, onde predomina um clima mais ameno, em razão do Planalto da Borborema, com chuvas regulares e solos férteis propícios a diversas culturas, e, em razão disso, lá se instalaram famílias de colonizadores europeus que aportaram em meu querido rincão – existia uma moça de nome Ingrácia. Diziam ser de origem espanhola, com ancestrais nos idos do Brasil Colônia, quando isso aqui, Portugal e Espanha era uma coisa só.
Era moça prendada. Cozinhava, costurava, bordava, sabia de tudo de casa e não era apenas um pouquinho, como se diz pra fazer fita, não. Tinha sido moldada para ser esposa e dona de casa exemplar. Fazia tudo com perfeição. E ainda tocava piano, violino e umas polcas no acordeão. Moça igual àquela nas redondezas podia haver, mas, melhor não. Só ficava chateada, às vezes de perder a calma, quando com o seu nome faziam alteração. Nunca vi ninguém ficar tão arretado, corado, tamanho o constrangimento.
Foi aí, então, que por aquele momento, apareceu Zé Bento. Moço da capital, todo gabola, ia passar na casa de familiares os festejos de São João. Era falador, mas não era letrado, pois fora expulso da escola onde só arrumava confusão. O pai era rico comerciante e, por isso, pensavam os dois – pai e filho – que lhe bastava ficar atrás do balcão, recebendo os cobres, passando troco e contando quinhão.
Bateu os olhos na moçoila e logo surgiu um intenso sentimento que lhe acelerou o coração. De pronto fez-se apaixonado e decidiu, em poucos dias, ir ao pai dela pedir-lhe a mão. Porém, não é que bem na hora do pedido, aos pés da donzela, ajoelhado em contrição, ele foi surpreendido?
– Quero não! – disse ela maliciosamente ao pretenso pretendente que, desabando, foi ao chão. E foi saindo de imediato, sem olhar para trás... Dando rabissaca, retirou-se ao seu quarto sem lhe dar explicação...
– Ingrata, por que recebeste as flores e os meus bilhetes em que te confessava meus amores?
E lá de dentro ouviu-se, em tom de desabafo:
– Como posso me casar com um homem que confunde adjetivo com prenome? E pior, bem pior, nesses dias pode estar a me chamar de Inácia! Pode? Confundir o meu lindo nome com o da dona do puteiro da cidade? Já disse: Quero não! – E bateu a porta, botando tranca pesada, pra todo mundo ouvir...
Aí eu vou te dizer:
– É, as flores eram lindas e as cartas copiadas dos melhores livros, passadas com capricho, em caligrafia. Eram até perfumadas!
E você vai me responder:
– Quanta ingratidão...

criado por Tonton
13:53:30

Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Foi graças à língua que a seduzi. Disse-me ela que tremeu ao conhecer minhas habilidades, nunca havia encontrado alguém assim. Suspirou por dias seguidos, rememorando o primeiro encontro. Anos se passaram, e ainda parecemos feitos um para o outro. Nosso relacionamento extrapola o afetivo, inclui também o profissional. Sempre trocamos presentes, nos tornamos amigos, confidentes, nos orgulhamos um do outro. Em verdade, nos completamos. Não vivemos um sem o outro. Muitos de nossos filhos ganharam o mundo. Aliás, os preparamos para tal fim.
Nem mesmo as muitas viagens que fiz em razão de minha profissão foram capazes de nos separar por muito tempo. Pelo contrário, a cada novo cenário conhecido, visitado, surgiam novas oportunidades de reaproximação. Podia ser uma paisagem, uma praça, um parque, um restaurante, um aeroporto, etc. Quando lhe apresentava a narrativa, ela parecia viajar junto. Ainda que jamais tenha me acompanhado em qualquer dessas viagens, os detalhes cuidadosamente descritos a faziam participar intensamente de cada uma.
Compartilhamos muitas horas. Pelos cafés da cidade, nos encontrávamos e esquecíamos o passar do tempo. Conversávamos sobre cultura, religião, música, enfim, sobre muitas coisas, sobre quase todos os assuntos. Ela realmente conseguia penetrar em meus pensamentos, e eu conseguia captar suas idéias com uma velocidade incrível. Tínhamos uma conexão cerebral perfeita. Essa atração mútua nos fascinava.
Apesar daquela sedução que se renovava a cada encontro, que nos fazia adentrar as madrugadas para satisfazermos pequenos caprichos, como em qualquer relacionamento duradouro, não era incomum haver divergências que nos faziam repensar sobre a sua continuidade. Valia a pena seguir adiante, mesmo depois de tanto tempo juntos? Acredito que ambos se questionaram se não seria chegada a hora de buscar novos companheiros. Creio que nos acostumamos um ao outro e, de certa forma, nos tornamos reciprocamente dependentes...
Entreolhávamo-nos e, freqüentemente, sorríamos com as pequenas discussões que resultavam de nossas diferentes visões do mundo. Meu olhar criativo e romântico, algumas vezes, se contrapunha ao seu olhar rigoroso, crítico, diria que, em certas situações, chegava a ser hermético. Eu sempre estava disposto a fazer concessões, enquanto ela defendia com vigor a sua posição. Crescemos, e muito, com essa relação. Cada qual de um jeito bem próprio. Ensinamos e aprendemos. E assim levamos inúmeros livros ao grande público.
Foi graças à língua portuguesa que nos conhecemos. Eu escritor e ela revisora...
Suas dicas tornaram os meus textos mais interessantes. Ela adorava ser a primeira a lê-los...
A parceria tornou-se duradoura...

criado por Tonton
23:11:51

Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Verão em Buenos Aires. A cidade pulsa em todas as suas dimensões e em todas as direções. É um verdadeiro fervilhar de gente, de sotaques, de costumes, de desejos e de imaginação...
Põe reticências nisso...
Se o frevo não tivesse nascido em Recife, creio que lá teria sido o segundo lugar no mundo mais propício para se dar tal evento. Mas, já que isso não aconteceu, deixe-me contar a vocês o que se passou comigo. Não dá nem para imaginar como tudo acabou...
Bom, sei que eu e duas amigas – todas as três com menos de 21 anos – decidimos dar uma espécie de grito de independência e fomos curtir alguns dias na capital de “los hermanos”. Ui... e tinha cada “hermoso” mais “hermoso” que o outro.Afinal, para que ia servir tudo o que economizamos trabalhando duramente como vendedores temporárias nos shopping centers da cidade no último final de ano? Cosméticos, roupas e muita farra – não necessariamente nesta ordem – estavam à nossa espera.
Que diferença ia fazer em nossa vida passarmos mais um carnaval pelas ladeiras de Olinda? Já éramos veteranas do sobe e desce e no seguir dos blocos. Queríamos novidade...
Novidade? Bom, lá mal tem carnaval... mas, tem cada balada...
Com as dicas de umas amigas mais descoladas descobrimos as melhores lojas, as melhores pechinchas, tudo de bom para cada compra tinha o seu devido lugar. De dia íamos às lojas e à noite íamos às festas. Valeu cada centavo gasto!
Ah, uma amiga que estudava por lá nos emprestou o apartamento por uns dias. Um charme, pequenininho, super bem localizado, transado mesmo, uma gracinha! Dava pra ir a pé ou rapidinho de táxi ou de metrô para todos os lados. Foram muitos bons dias de curtição...
Então, resolvemos fazer uma festa de despedida. Chamamos todos os que conhecíamos e liberamos geral pros amigos deles. Não deu outra: lotação esgotada! Sucesso total! Festa boa tinha que ser daquele jeito: “bombando” no início ao fim.
Aí, lá pelas tantas, com tanta gente e tanta carga na rede elétrica do velho apê, o ar-condicionado pifou. Calorão! O pessoal foi saindo de fininho. Até que ficamos só nós três e três belos. Tinha tudo pra dar certo! Chamei as outras duas para a cozinha – dessas, estilo americano, conjugadas com a sala – e disse: – O Raul é meu!
Elas ergueram os polegares assentindo. Aproximei-me de meu alvo e ofereci um das últimas cervejas que sobraram geladas.
Bebida vai, bebida vem, calor, álcool, álcool e mais álcool na cabeça. Desfaleci! Acordei nua sob o chuveiro, sentada na diminuta banheira. De costas para quem estivesse comigo no banheiro – pense numa ressaca moral! –, levantei-me, apoiando-me do jeito que pude na torneira e na saboneteira incrustada na parede. Senti uma presença bem próxima a mim. Chamei baixinho por minhas amigas: – Vivi, Lu?
Nenhuma das duas respondeu. Imaginei: – Só pode ser ele! Hoje ele não escapa! Ai!!! Vou seduzi-lo, juro que vou!
Senti a aproximação de uma presença quente por trás de mim. Algo me tocou muito de leve as nádegas e em meus ombros. Ui! Arrepiei toda!
Foi quando, cheia de boas intenções, dei um passo para trás e me senti envolvida... pelo grosso cortinado plástico, já quase derretido, tamanha a temperatura da água aquecida. Só então me dei conta disso e me enrolando em um roupão fui à sala, onde todos dormiam calmamente, embriagados. E eu, sem sono, tive toda a toda a tranqüilidade do mundo para recolher latas e garrafas, lavar os pratos e limpar algumas manchas que sempre surgem em festinhas do gênero...
Eu que pensei que ia me atar com o Raul, passei todo o amanhecer atada com a vassoura, pano de chão e sacos de lixo... Fazer o quê? Verão que vem tem mais...

criado por Tonton
00:33:24

Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Adamastor chegou a casa, guardou com cuidado a calça que ainda conservava intactas as dobras engomadas por D. Julieta, a dona da pensão onde morava. Tirou a camisa listrada, de listras grossas e listras finas, puxou de lado a cadeira que fazia par com a pequena mesa no canto do quarto e lá deixou a veste.
Colocou as meias dentro dos calçados, devidamente lustrados para a ocasião. Sentado à cama, empurrou-os para baixo, para que não atrapalhassem a sua passagem durante a noite. Mas, que noite? Já se fazia alta madrugada e a claridade do novo dia começava a raiar.
Estava somente de camiseta de malha, do tipo regata e cueca samba-canção. Bebeu gole de água da moringa, arremessando, sem seguida, o copo no chão. Andou de um lado para o outro, rodopiou, laçou o caibro do teto com o cinturão e ali mesmo se enforcou...
Tinha ido ao baile para declarar o seu amor a Maria Joana, que lá encontrou nos braços de um outro João, feliz da vida, contente, contando a todos a novidade e a sua decisão. Recebera aliança, fazia planos e aceitara casar-se sem impor condição...

criado por Tonton
09:41:33