29/3/08
Há dias e dias…

Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Sendo naturalmente retraído, desde criança, gosto de me pôr a observar as outras pessoas. Fazia isso com os mais velhos, quando ia à feira, ao supermercado e, talvez, por essa razão, tenha me tornado adulto um pouco mais cedo do que devia, além de desenvolver um apurado senso de percepção a respeito do comportamento humano. Com a falta de idade e de experiência de vida contrapondo-se às observações, como parte natural do aprendizado, sempre me restava algumas dúvidas. Acho que isso é bem normal, por que algumas ainda persistem. Afinal, quem é atinge a maturidade por completo?
Bem, mas quem eu gostava realmente de observar eram os colegas de classe. Fazia isso desde o primário e consolidei o aprendizado acerca da condição humana no ginásio e no segundo grau, por que os conseguia entender – quase que por completo – em sua maneira de agir e na forma de pensar. Quantas e quantas vezes me pus em seus lugares… Na imaginação, quero dizer… Na 8ª série, já com nossos 13 ou 14 anos, havia o Pedrinho, tímido que só, coitado, mas apaixonado pela Evelyne, a garota mais bonita da escola. Tinha também o Luisinho, o almofadinha, por quem todas as meninas suspiravam, com o cabelo sempre arrumadinho. Pude observar o quanto ela esnobou o primeiro e quanto ela se decepcionou com o segundo, que se achava bom demais pra ela.
E num piscar de olhos, trinta anos se passaram…
Ela casou, teve filhos, descasou e, por um desses acasos do destino, um dia, reencontrou Pedrinho. Trocaram telefones, marcaram para sair. Outras vezes se encontraram, sorriram e confessaram que apreciaram o acontecido.
Dias depois, tudo se repetiu e ela entregou-se a ele confessando toda a carência de há tanto tempo não ser amada, acariciada, tratada com a dignidade e a delicadeza que um homem deve a uma mulher. Sentiu-se rainha e fez-se apaixonada. Ele, por razoes de trabalho, foi transferido para outra cidade. Ela nunca se sentiu tão abandonada…
Mas não pôde conter o riso quando viu o Luisinho de cabelo tingido e escovado, com o personal trainer a tiracolo – para qual fosse o lado, lá ele ia junto… Como estava mudado! – supostamente pensaria ela. Eu diria: nem tanto!
Não me disseram nada, nem foi de ouvir dizer. Vi tudo o que aconteceu. Eles é que não me viram, pois eu continuava calado, recolhido ao meu lugar, com o caderninho postado, trazendo tudo devidamente anotado, personagens e enredos para o melhor da história ser contado… como parte do ofício de ser escritor.
criado por contonton
10:52 — Arquivado em: 









