Contos e Histórias de Tonton

Contos, histórias, poesias e muito mais coisas do mundo literário de Antonio Nunes, carinhosamente chamado de Tonton por amigos e familiares.Visite também: http://contonton.blogspot.com

29/3/08

Há dias e dias…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Sendo naturalmente retraído, desde criança, gosto de me pôr a observar as outras pessoas. Fazia isso com os mais velhos, quando ia à feira, ao supermercado e, talvez, por essa razão, tenha me tornado adulto um pouco mais cedo do que devia, além de desenvolver um apurado senso de percepção a respeito do comportamento humano. Com a falta de idade e de experiência de vida contrapondo-se às observações, como parte natural do aprendizado, sempre me restava algumas dúvidas. Acho que isso  é bem normal, por que algumas ainda persistem. Afinal, quem é atinge a maturidade por completo?
Bem, mas quem eu gostava realmente de observar eram os colegas de classe. Fazia isso desde o primário e consolidei o aprendizado acerca da condição humana no ginásio e no segundo grau, por que os conseguia entender – quase que por completo – em sua maneira de agir e na forma de pensar. Quantas e quantas vezes me pus em seus lugares… Na imaginação, quero dizer… Na 8ª série, já com nossos 13 ou 14 anos, havia o Pedrinho, tímido que só, coitado, mas apaixonado pela Evelyne, a garota mais bonita da escola. Tinha também o Luisinho, o almofadinha, por quem todas as meninas suspiravam, com o cabelo sempre arrumadinho. Pude observar o quanto ela esnobou o primeiro e quanto ela se decepcionou com o segundo, que se achava bom demais pra ela.
E num piscar de olhos, trinta anos se passaram…
Ela casou, teve filhos, descasou e, por um desses acasos do destino, um dia, reencontrou Pedrinho. Trocaram telefones, marcaram para sair. Outras vezes se encontraram, sorriram e confessaram que apreciaram o acontecido.
Dias depois, tudo se repetiu e ela entregou-se a ele confessando toda a carência de há tanto tempo não ser amada, acariciada, tratada com a dignidade e a delicadeza que um homem deve a uma mulher. Sentiu-se rainha e fez-se apaixonada. Ele, por razoes de trabalho, foi transferido para outra cidade. Ela nunca se sentiu tão abandonada…
Mas não pôde conter o riso quando viu o Luisinho de cabelo tingido e escovado, com o personal trainer a tiracolo – para qual fosse o lado, lá ele ia junto… Como estava mudado! – supostamente pensaria ela. Eu diria: nem tanto!
Não me disseram nada, nem foi de ouvir dizer. Vi tudo o que aconteceu. Eles é que não me viram, pois eu continuava calado, recolhido ao meu lugar, com o caderninho postado, trazendo tudo devidamente anotado, personagens e enredos para o melhor da história ser contado…  como parte do ofício de ser escritor.

criado por contonton    10:52 — Arquivado em: Contos

28/3/08

Ingrata…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

Lá para as bandas do Brejo Paraibano – e para quem não sabe, vou dizer aqui que é uma microrregião do agreste do Estado da Paraíba, onde predomina um clima mais ameno, em razão do Planalto da Borborema, com chuvas regulares e solos férteis propícios a diversas culturas, e, em razão disso, lá se instalaram famílias de colonizadores europeus que aportaram em meu querido rincão – existia uma moça de nome Ingrácia. Diziam ser de origem espanhola, com ancestrais nos idos do Brasil Colônia, quando isso aqui, Portugal e Espanha era uma coisa só.
Era moça prendada. Cozinhava, costurava, bordava, sabia de tudo de casa e não era apenas um pouquinho, como se diz pra fazer fita, não. Tinha sido moldada para ser esposa e dona de casa exemplar. Fazia tudo com perfeição. E ainda tocava piano, violino e umas polcas no acordeão. Moça igual àquela nas redondezas podia haver, mas, melhor não. Só ficava chateada, às vezes de perder a calma, quando com o seu nome faziam alteração. Nunca vi ninguém ficar tão arretado, corado, tamanho o constrangimento.
Foi aí, então, que por aquele momento, apareceu Zé Bento. Moço da capital, todo gabola, ia passar na casa de familiares os festejos de São João. Era falador, mas não era letrado, pois fora expulso da escola onde só arrumava confusão. O pai era rico comerciante e, por isso, pensavam os dois – pai e filho – que lhe bastava ficar atrás do balcão, recebendo os cobres, passando troco e contando quinhão.
Bateu os olhos na moçoila e logo surgiu um intenso sentimento que lhe acelerou o coração. De pronto fez-se apaixonado e decidiu, em poucos dias, ir ao pai dela pedir-lhe a mão. Porém, não é que bem na hora do pedido, aos pés da donzela, ajoelhado em contrição, ele foi surpreendido?
– Quero não! – disse ela maliciosamente ao pretenso pretendente que, desabando, foi ao chão. E foi saindo de imediato, sem olhar para trás… Dando rabissaca, retirou-se ao seu quarto sem lhe dar explicação…
– Ingrata, por que recebeste as flores e os meus bilhetes em que te confessava meus amores?
E lá de dentro ouviu-se, em tom de desabafo:
– Como posso me casar com um homem que confunde adjetivo com prenome? E pior, bem pior, nesses dias pode estar a me chamar de Inácia! Pode? Confundir o meu lindo nome com o da dona do puteiro da cidade? Já disse: Quero não! – E bateu a porta, botando tranca pesada, pra todo mundo ouvir…
Aí eu vou te dizer:
– É, as flores eram lindas e as cartas copiadas dos melhores livros, passadas com capricho, em caligrafia. Eram até perfumadas!
E você vai me responder:
– Quanta ingratidão…

 

criado por contonton    13:53 — Arquivado em: Contos

27/3/08

Graças à língua…

 

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Foi graças à língua que a seduzi. Disse-me ela que tremeu ao conhecer minhas habilidades, nunca havia encontrado alguém assim. Suspirou por dias seguidos, rememorando o primeiro encontro. Anos se passaram, e ainda parecemos feitos um para o outro. Nosso relacionamento extrapola o afetivo, inclui também o profissional. Sempre trocamos presentes, nos tornamos amigos, confidentes, nos orgulhamos um do outro. Em verdade, nos completamos. Não vivemos um sem o outro. Muitos de nossos filhos ganharam o mundo. Aliás, os preparamos para tal fim.
Nem mesmo as muitas viagens que fiz em razão de minha profissão foram capazes de nos separar por muito tempo. Pelo contrário, a cada novo cenário conhecido, visitado, surgiam novas oportunidades de reaproximação. Podia ser uma paisagem, uma praça, um parque, um restaurante, um aeroporto, etc. Quando lhe apresentava a narrativa, ela parecia viajar junto. Ainda que jamais tenha me acompanhado em qualquer dessas viagens, os detalhes cuidadosamente descritos a faziam participar intensamente de cada uma.
Compartilhamos muitas horas. Pelos cafés da cidade, nos encontrávamos e esquecíamos o passar do tempo. Conversávamos sobre cultura, religião, música, enfim, sobre muitas coisas, sobre quase todos os assuntos. Ela realmente conseguia penetrar em meus pensamentos, e eu conseguia captar suas idéias com uma velocidade incrível. Tínhamos uma conexão cerebral perfeita. Essa atração mútua nos fascinava.
Apesar daquela sedução que se renovava a cada encontro, que nos fazia adentrar as madrugadas para satisfazermos pequenos caprichos, como em qualquer relacionamento duradouro, não era incomum haver divergências que nos faziam repensar sobre a sua continuidade. Valia a pena seguir adiante, mesmo depois de tanto tempo juntos? Acredito que ambos se questionaram se não seria chegada a hora de buscar novos companheiros. Creio que nos acostumamos um ao outro e, de certa forma, nos tornamos reciprocamente dependentes…
Entreolhávamo-nos e, freqüentemente, sorríamos com as pequenas discussões que resultavam de nossas diferentes visões do mundo. Meu olhar criativo e romântico, algumas vezes, se contrapunha ao seu olhar rigoroso, crítico, diria que, em certas situações, chegava a ser hermético. Eu sempre estava disposto a fazer concessões, enquanto ela defendia com vigor a sua posição. Crescemos, e muito, com essa relação. Cada qual de um jeito bem próprio. Ensinamos e aprendemos. E assim levamos inúmeros livros ao grande público.
Foi graças à língua portuguesa que nos conhecemos. Eu escritor e ela revisora…
Suas dicas tornaram os meus textos mais interessantes. Ela adorava ser a primeira a lê-los…
A parceria tornou-se duradoura…

 

criado por contonton    23:11 — Arquivado em: Contos

25/3/08

Ata-me…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Verão em Buenos Aires. A cidade pulsa em todas as suas dimensões e em todas as direções. É um verdadeiro fervilhar de gente, de sotaques, de costumes, de desejos e de imaginação…
Põe reticências nisso…
Se o frevo não tivesse nascido em Recife, creio que lá teria sido o segundo lugar no mundo mais propício para se dar tal evento. Mas, já que isso não aconteceu, deixe-me contar a vocês o que se passou comigo. Não dá nem para imaginar como tudo acabou…
Bom, sei que eu e duas amigas – todas as três com menos de 21 anos – decidimos dar uma espécie de grito de independência e fomos curtir alguns dias na capital de “los hermanos”. Ui… e tinha cada “hermoso” mais “hermoso” que o outro.Afinal, para que ia servir tudo o que economizamos trabalhando duramente como vendedores temporárias nos shopping centers da cidade no último final de ano? Cosméticos, roupas e muita farra – não necessariamente nesta ordem – estavam à nossa espera.
Que diferença ia fazer em nossa vida passarmos mais um carnaval pelas ladeiras de Olinda? Já éramos veteranas do sobe e desce e no seguir dos blocos. Queríamos novidade…
Novidade? Bom, lá mal tem carnaval… mas, tem cada balada…
Com as dicas de umas amigas mais descoladas descobrimos as melhores lojas, as melhores pechinchas, tudo de bom para cada compra tinha o seu devido lugar. De  dia íamos às lojas e à noite íamos às festas. Valeu cada centavo gasto!
Ah, uma amiga que estudava por lá nos emprestou o apartamento por uns dias. Um charme, pequenininho, super bem localizado, transado mesmo, uma gracinha! Dava pra ir a pé ou rapidinho de táxi ou de metrô para todos os lados. Foram muitos bons dias de curtição…
Então, resolvemos fazer uma festa de despedida. Chamamos todos os que conhecíamos e liberamos geral pros amigos deles. Não deu outra: lotação esgotada! Sucesso total! Festa boa tinha que ser daquele jeito: “bombando” no início ao fim.
Aí, lá pelas tantas, com tanta gente e tanta carga na rede elétrica do velho apê, o ar-condicionado pifou. Calorão! O pessoal foi saindo de fininho. Até que ficamos só nós três e três belos. Tinha tudo pra dar certo! Chamei as outras duas para a cozinha – dessas, estilo americano, conjugadas com a sala – e disse: – O Raul é meu!
Elas ergueram os polegares assentindo. Aproximei-me de meu alvo e ofereci um das últimas cervejas que sobraram geladas.
Bebida vai, bebida vem, calor, álcool, álcool e mais álcool na cabeça. Desfaleci! Acordei nua sob o chuveiro, sentada na diminuta banheira. De costas para quem estivesse comigo no banheiro – pense numa ressaca moral! –, levantei-me, apoiando-me do jeito que pude na torneira e na saboneteira incrustada na parede. Senti uma presença bem próxima a mim. Chamei baixinho por minhas amigas: – Vivi, Lu?
Nenhuma das duas respondeu. Imaginei: – Só pode ser ele! Hoje ele não escapa! Ai!!! Vou seduzi-lo, juro que vou!
Senti a aproximação de uma presença quente por trás de mim. Algo me tocou muito de leve as nádegas e em meus ombros. Ui! Arrepiei toda!
Foi quando, cheia de boas intenções, dei um passo para trás e me senti envolvida… pelo grosso cortinado plástico, já quase derretido, tamanha a temperatura da água aquecida. Só então me dei conta disso e me enrolando em um roupão fui à sala, onde todos dormiam calmamente, embriagados. E eu, sem sono, tive toda a toda a tranqüilidade do mundo para recolher latas e garrafas, lavar os pratos e limpar algumas manchas que sempre surgem em festinhas do gênero…
Eu que pensei que ia me atar com o Raul, passei todo o amanhecer atada com a vassoura, pano de chão e sacos de lixo… Fazer o quê? Verão que vem tem mais…

criado por contonton    0:33 — Arquivado em: Contos

24/3/08

O baile solitário…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

Adamastor chegou a casa, guardou com cuidado a calça que ainda conservava intactas as dobras engomadas por D. Julieta, a dona da pensão onde morava. Tirou a camisa listrada, de listras grossas e listras finas, puxou de lado a cadeira que fazia par com a pequena mesa no canto do quarto e lá deixou a veste.
Colocou as meias dentro dos calçados, devidamente lustrados para a ocasião. Sentado à cama, empurrou-os para baixo, para que não atrapalhassem a sua passagem durante a noite. Mas, que noite? Já se fazia alta madrugada e a claridade do novo dia começava a raiar.
Estava somente de camiseta de malha, do tipo regata e cueca samba-canção. Bebeu gole de água da moringa, arremessando, sem seguida, o copo no chão. Andou de um lado para o outro, rodopiou, laçou o caibro do teto com o cinturão e ali mesmo se enforcou…
Tinha ido ao baile para declarar o seu amor a Maria Joana, que lá encontrou nos braços de um outro João, feliz da vida, contente, contando a todos a novidade e a sua decisão. Recebera aliança, fazia planos e aceitara casar-se sem impor condição…

 

criado por contonton    9:41 — Arquivado em: Contos

22/3/08

Balaio…

 

 

Esta foto é de autoria da fotógrafa Cláudia Jacobovitz, a quem tenho a honra de chamar de querida amiga. Veja mais fotos de Claudinha em http://www.flickr.com/photos/claudia-jacobovitz/

 

Por Antonio Nunes barbosa Filho

 

Salatiel era menino bom, trabalhador, daqueles que desde sempre ajudava os pais na tarefa de sustentar os irmãos menores. Já devia contar com seus 13 ou 14 anos quando se passou este fato.
Era sexta-feira santa e não havia em casa o que comer. Saiu de casa em jejum que por aquelas horas não parecia nada de mais, afinal era dia de fazer penitência, de espiar um pouco os pecados da vida mundana. Foi à feira como de costume. Era lá que ganhava algum trocado trazendo e levando mercadorias no balaio posto à cabeça. Sonhava em ter um carrinho de mão, para fazer as entregas de maneira mais ágil e com menos sofrimento. Diziam que a carga na cabeça lhe prejudicava o crescimento, mas ele sabia que eram as origens, essa tal de genética, que lhe davam aquele aspecto entroncado.
Balaio nos braços circulava oferecendo o serviço, mas as compras daquele dia eram pequenas e tudo se encerraria muito cedo. Era um molho de bredo pra cá, um coco seco pra lá. No máximo uns dois quilos de sardinhas frescas ou um corte de bacalhau, dos mais salgados, já que dinheiro era o que não sobrava por aquelas bandas. Ninguém precisaria de balaieiro naquele dia…
Andou pra lá e pra cá, e nada de conseguir a grana que garantisse o peixe da família naquele dia. Pra dizer a verdade, não conseguira grana alguma. Estava triste o pobre menino. Passou a hora do almoço, em branco, sem pão e sem feijão. Chegou a hora santa, as 3 horas da tarde e nada. Ia e vinha com o balaio na cabeça sem saber o que fazer. Era de uma angústia só!
Então, na beira do córrego que passava às portas da favela onde morava, sentou-se em uma pedra e levando as mãos ao rosto, marejou os olhos e fez menção de chorar. Mas segurou o choro, que não combinava em nada com a fome que sentia. Maldizendo a própria sorte, arremessou longe o balaio que caiu com a boca voltada para cima. Para completar, o tempo que já estava feio, escurecido, começa a garoar. Não se sabe de onde, tanajuras caíram do céu, indo parar algumas delas bem no centro do bendito balaio.
E não é que, também, não se sabendo de onde, uma galinha atrevida, buscando abocanhar a apetitosa, empoleirou-se nas bordas do balaio que tombou por sobre esta, como se fosse armadilha de alçapão pra apanhar passarinho! Não vendo ninguém por perto que pudesse reclamar a posse da penosa, Salatiel levantou cuidadosamente o balaio e a amarrou – asa e pés – com cipós, retornando o balaio à posição original.
E o processo se repetiu outras três vezes. Com as galinhas em mãos, partiu e as negociou com o peixeiro, fazendo barganha e bom negócio, já que algum peixe sobrava por aquelas horas. Afinal, não era dia para se comer carne, nem vermelha, nem branca, de animal que andasse pela face da terra. E seguiu feliz, de volta para casa, onde água no fogo, fez-se pirão para saciar a fome de todos os presentes. E não houve mais, daquele dia em diante, naquela família, quem deixasse de acreditar em milagres.
Todos os anos, naquele mesmo dia, todos saiam de casa com os seus balaios, que nunca mais voltaram vazios…

 

criado por contonton    12:16 — Arquivado em: Contos

20/3/08

O incrível cérebro humano…

 

O cérebro humano é capaz de coisas incríveis. Recebi este texto por e-mail, desconheço o autor. A título de curiosidade, segue para amplo conhecimento. Espero que apreciem. Boa Páscoa! Ah, e não exagerem no chocolate, no vinho ou no leite de coco…

 

3M D14 D3 V3R40, 3574V4 N4 PR414,
0853RV4ND0 DU45 CR14NC45
8R1NC4ND0 N4 4R314.
3L45 7R484LH4V4M MU170 C0N57RU1ND0
UM C4573L0 D3 4R314, C0M 70RR35,
P4554R3L45 3 P4554G3NS 1N73RN45.
QU4ND0 3574V4M QU453 4C484ND0,
V310 UM4 0ND4 3 D357RU1U 7UD0,
R3DU21ND0 0 C4573L0
4 UM M0N73 D3 4R314 3 35PUM4.
4CH31 QU3, D3P015 D3 74N70 35F0RC0 3 CU1D4D0,
45 CR14NC45 C41R14M N0 CH0R0,
C0RR3R4M P3L4 PR414, FUG1ND0 D4 4GU4,
R1ND0 D3 M405 D4D45 3 C0M3C4R4M
4 C0N57RU1R 0U7R0 C4573L0.
C0MPR33ND1 QU3 H4V14 4PR3ND1D0
UM4 GR4ND3 L1C40;
G4574M05 MU170 73MP0 D4 N0554 V1D4
C0N57RU1ND0 4LGUM4 C0154
3 M415 C3D0 0U M415 74RD3,
UM4 0ND4 P0D3R4 V1R 3 D357RU1R 7UD0
0 QU3 L3V4M05 74N70 73MP0 P4R4 C0N57RU1R.
M45 QU4ND0 1550 4C0N73C3R
50M3N73 4QU3L3 QU3 73M 45 M405 D3 4LGU3M
P4R4 53GUR4R, 53R4 C4P42 D3 50RR1R!
S0 0 QU3 P3RM4N3C3, 3 4 4M124D3, 0 4M0R 3 C4R1NH0.
0 R3570 3 F3170 D3 4R314.

Nosso cérebro é fascinante, não é mesmo ?

VEJA MAIS UMA…

35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O! NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45 N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M PR3C1S4R P3N54R MU1TO, C3RTO? POD3 F1C4R B3M ORGULHO5O D155O! SU4 C4P4C1D4D3 M3R3C3! P4R4BÉN5!

 

criado por contonton    15:08 — Arquivado em: Pessoais

Ela maltratou…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

A nova namorada de meu melhor amigo era daquelas invejáveis. Corpo escultural, 1,78 m de altura, uns 64 kg, cinturinha fina, pernas grossas, perfeitamente lisinhas, unhas e cabelos impecavelmente cuidados, sempre cheirosa e com um imbatível sorriso meigo nos lábios. Não se incomodava que ele tomasse cerveja com os amigos, fosse ao futebol aos domingos e abria até exceção para as peladas de voleibol nas noites de terças e quintas-feiras. Tratava-o com o maior zelo e carinho. Falava pouco, não bebia, não fumava, tinha carro e apartamento próprios. Um verdadeiro achado. Ia para a cozinha nas noites de sexta, preparava românticos jantares exclusivos e, na manhã seguinte, trazia um reforçado café-da-manhã, na cama, para ele. Era uma mulher quase perfeita.
A turma inteira tinha inveja de Mário. Todos ficavam sem entender o que aquele mulherão tinha visto naquele caboclo cujo patrimônio resumia-se a uma Kombi modelo 1980 de onde tirava o sustento vendendo confecções, de porta em porta, nos bairros periféricos. Longe de nós qualquer preconceito por questões econômicas, sociais, políticas, religiosas ou raciais. Mas, convenhamos, Mário não era nenhum estereótipo de beleza masculina. Era barrigudo, narigudo, usava uma peruca ridícula, usava prótese dentária e mantinha sempre meio palito de dentes no canto da boca, além daquele infame bigodinho “rodapé”. Fora isso, ele era gente boa.
Certa vez, a mãe dele adoeceu, e ele teve de viajar ao interior. Sua cativante namorada comprou-lhe cuecas e meias novas, fez as malas e ainda enviou à futura sogra − pelo menos ela pensava assim, e o bairro inteiro também − alguns agrados. A velhinha piorou, e ele decidiu ficar mais tempo. Todos os dias, Anália − esse era o nome desse verdadeiro anjo barroco − ligava e fazia apenas duas perguntas: − Como vai você? Como vai sua mamãe?
Como os dias iam passando, a turma se reuniu e fez um verdadeiro pacto mortal, com toda a sinceridade, ninguém tentaria se aproximar dela na ausência dele e não apenas isso, todos ficariam de olho em Anália para que nenhum “urubu malandro”, mal intencionado, buscasse se aproveitar de sua fragilidade momentânea provocada pela ausência do amado. E foi assim, vigilância redobrada. Vigiada dia e noite, confirmamos o esperado. Além de todas as qualidades já descritas, ela era fiel, completamente fiel, tendo, inclusive, declarado publicamente, mais de uma vez, que era apaixonada e se sentia plenamente realizada. Realmente, era de causar inveja.
Mário era continuamente informado de tudo. Um dia, infelizmente, a mãe dele morreu. Dias depois, voltou e acabou tudo com Anália. Ficamos sem entender. Perguntamos se havia sido a angústia pela perda da mãe.
− Não, ele disse.
Se havia conhecido outra mulher. Antes que respondesse, já estava cercado de olhares reprovadores. Ele também disse não a essa pergunta. E então, qual seria o motivo?
− Ela maltratou…
Ficamos absortos, sem acreditar.
− Como? – perguntamos estupefatos. Ele respondeu:
− De tanto me ligar, ela fez gastos astronômicos no telefone. Esqueceu-se de pagar a fatura e cortaram-lhe a linha… Deu uma pausa para respirar e continuar a falar.
– Que é isso amigo? Acontece com todo mundo. Isso lá é motivo para dispensar esse avião, essa deusa grega, uma cozinheira de mão cheia??? Gritou quase agarrando-o pela mão o seu primo Diogo.
− Ela maltratou, repetiu.
− Me escreveu uma carta para enviar-me pêsames, condolências…
Puxando a carta toda amarrotada do bolso, continuou:
– Vinte erros crassos de português, em quinze linhas, disse indignado.
– Calma homem, e as outras qualidades? Tentou contornar a situação Joaquinzão com ares de apaziguador. Aí ele soltou o verbo:
− Já imaginou que antas serão os meus filhos com essa mulher? Serão conhecidos como os “burrinhos do seu Mário”. Posso agüentar tudo, menos isso. Disse revoltado e foi embora.
Ela havia maltratado a língua portuguesa, coisa tão cara ao nosso companheiro que, antes de tudo, era um fiel discípulo do professor Pasquale. Aquele era o seu encanto… e, para ele, aquilo seria insuportável, inconcebível…

 

criado por contonton    14:47 — Arquivado em: Contos

19/3/08

O albergue…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Tempos difíceis os anos 80 na Argentina. Recessão, desemprego e falta de oportunidades para os jovens. Nada de programas de geração de emprego e renda. Profissionais qualificados sem ter o que fazer ou sujeitando-se a subempregos. Nessas horas é que a gente se pergunta:
– Tanto lugar e tantas épocas para se nascer e eu tinha que nascer justamente neste país e neste período?
Pois é, aqui e nos países vizinhos se viveu a “década perdida”. Horror econômico e caos social. Não há sonhos que resistam a estes cenários. Eu engenheiro e minha namorada médica. Sem trabalho, sem perspectivas e com um terrível sentimento de impotência…
Planos? Pra que planos? Tentar a vida no exterior? Mal tínhamos o dinheiro para passagens de ônibus… Eu ia namorar de bicicleta!
Ainda tentei conseguir algo como redator para o teatro, mas sabe como é né, os gastos com cultura são das primeiras coisas cortadas quando a grana falta para o básico: para a comida, para a luz e para o gás etc.
Quem estaria interessado em estórias engraçadas, contos infantis e romances com a economia estagnada e o país indo à bancarrota?
Ela tentava, tentava e nada conseguia… Era especializada demais. Era pra lá de desesperador! Tudo o que consegui foi uma colocação de faxineiro em um albergue para velhinhos. Ganhava apenas o suficiente para o sustento e para as flores – no dia do recebimento do salário, era despesa certa – para a amada. Devo confessar que eram compradas de uma velha senhora florista nas proximidades do cemitério da Recoleta. Sobras, ela não vendia coisa alguma. Nesses tempos até os mortos sofrem… E foi ela que me deu a dica, pois tantos meses depois já se tornara minha amiga íntima e confidente:
– Converse com os albergados, conte suas histórias. Pelo menos eles irão sorrir um pouco e amenizará os dias!
E assim foi… Foi um sucesso! De estória em estória, de conto em conto, o local foi ficando famoso. Eu contava histórias e vovôs e vovós ficavam cada dia mais felizes. Fui angariando um trocado ali e outro acolá e terminei por adquirir o estabelecimento.
Hoje sou um próspero empresário. Ainda conto as minhas histórias. Afinal, elas são o segredo do negócio. A minha esposa – claro que me casei com a cardiologista, o verdadeiro amor sempre supera as adversidades – cuida do coração – e como sorrir, gargalhar melhora a condição cardíaca, duvida? – e eu cuido da mente de nossos clientes. É bom trabalhar ao lado de quem gostamos e confiamos. O difícil é quando temos que aturar ao nosso lado por toda a jornada alguém que gostaríamos que estivesse a quilômetros de distancia! Não é verdade? Vai dizer que você nunca pensou nisso? Desculpa, acho que coloquei uma pulga na sua orelha…
A propósito, no próximo verão abriremos a primeira de nossas filiais internacionais. Vai ser lá na Flórida/EUA… Mas claro, a gerente vai ser aquela florista… Ela é viúva e tem se queixado da artrite, do tempo ruim que insiste em fazer por aqui no inverno.
Se você quiser, posso reservar uma das vagas daqui pra você. Estamos ampliando as instalações. Ou prefere por lá?
Só que lá você vai ter que me ouvir contar histórias por vídeo conferência. Pois é, lá é tudo high tech…

criado por contonton    8:00 — Arquivado em: Contos

18/3/08

O aprendiz de Don Juan!

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

 

 Definitivamente! Desde cedo aprendi que para amar e ser correspondido é mais importante ser inteligente do que ser bonito. Mas, se o for – pelo menos bem afeiçoado, assim como eu –, bem que ajuda…
Faz alguns anos que percebi que as mulheres apreciam os homens atenciosos. Não aqueles melosos, grudentos, mas aqueles que se fazem notar ou destacar nos pequenos detalhes. Detalhes, às vezes, imperceptíveis para olhos desatentos que parecem confessar não lhes dar a atenção devida. E isso, é imperdoável…
Lembro-me bem, eu estava na 3ª série primária e disputava o amor de minha professora com um colega de turma. Ele era rico e se gabava, em meio a todos os meninos da classe, dizendo que iria convidá-la à sua festa de aniversário. Ele achava que com aquele gesto iria conquistá-la… Só que o aniversário dele seria em novembro e nós estávamos em pleno mês de maio, cheio de significado para as mulheres.
Ele tinha um plano! O que eu iria fazer?
Em um arroubo, mostrando-me destemido e, ao mesmo tempo, inocente, puxei-o discretamente de lado e disse-lhe que ele teria que lutar – e muito – por ela, pois teria que vencer-me na disputa. Naquela hora aprendi duas lições: a primeira, a de ser um cavalheiro e jogar limpo –mesmo aquele que parecia ser o maior “inimigo” que teria em toda minha vida, deveria saber de minhas intenções e não se bateria com um concorrente ou rival desconhecido; a segunda, talvez a mais importante, a de ser discreto, não comentar a minha própria vida, meus projetos ou meus sentimentos, com quem não conheço os valores…
No dia seguinte, Diógenes – esse era o nome de meu antagonista; pesquisei e descobri que o nome era grego. Imaginei “Nome de gente chique!” – trouxe consigo um presente para a professora. Colocou uma enorme e vermelha maçã sobre a mesa dela. E com um bilhete que dizia assim: “Para a melhor professora do mundo!”.
Uma maçã daquele tamanho, lustrosa, daquelas bem suculentas, parecia envernizada de tanto que brilhava. Com uma maçã daquela saltando aos olhos, Adão e Eva realmente não poderiam deixar de cair em tentação… Ah, a Branca de Neve, coitadinha, tinha que se deixar seduzir. E a professora então? Xiii…
Como eu poderia competir com um presente daqueles? Com certeza era importada…e, por cima, com uma declaração daquelas! Aquele presentear foi repetido uma semana inteirinha. “Ferrei-me, perdi!”, pensei com os meus botões… Foi aí que dei a grande cartada!…
O jogo virou completamente de figura…
No outro dia trouxe comigo uma caixa de fósforos com o seguinte bilhete: “Embora eu não aprecie, sei que você aprecia e deixo a você a decisão de fumar ou não!”. Naturalmente não tive coragem de assiná-lo. E nem precisou, fui pego em flagrante ao tentar colocá-los em sua bolsa, quando ela retornou da sala de professores – de súbito, de maneira inesperada –, logo após o intervalo do recreio. Eu me chamo José Carlos, já viu nome mais tupiniquim?!?
Não tive outra coisa a fazer e entreguei-os em mãos, dizendo: “Fé, pra você!”. Ela sorriu e agradeceu a gentileza, enquanto os outros colegas de classe adentravam ao recinto.
Dali aprenderia três lições para lidar com as mulheres:
a) Primeira: assuma seus atos, nada de timidez. Elas precisam saber que você existe e preferem homens de iniciativa;
b) Segunda: não as force a nada; as mulheres detestam sentir-se pressionadas. Deixe-as livres para decidirem – ainda que “toques” sutis possam direcioná-las a favor de nossa intenção –, mas, por favor, nunca exija qualquer comportamento delas!;
c) Terceira: as mulheres adoram nos chamar por carinhosos apelidos no diminutivo! Têm certeza de que somos delas…
Aconteceu assim o nosso primeiro encontro…
Ao final da aula ela fez-me aguardar pela saída de todos os demais e confessou-me:
– Zezinho, você é realmente um amor! Atencioso e cuidados. Seu gesto vai me fazer refletir se devo ou não continuar fumante! E inclinando-se em minha direção – fechei os olhos, pensei que iria deixar de ser “boca virgem” ali, naquele momento –, deu-me um beijo no rosto.
Repleto de uma mistura de alegria e decepção, dei-lhe as costas e fui saindo, quando tive coragem e perguntei-lhe:
– Prefere as maçãs?
Aí ela confidenciou, pedindo-me reserva:
– Sabe, prefiro as maçãs nacionais. As argentinas são muito bonitas, mas não têm o sabor das nossas!
– Então não gosta de comê-las?
– Quase nunca. Em geral as dou para as cozinheiras do colégio. Mas isso é segredo nosso! Ok?
– Claro! – respondi.
Última lição: guarde apenas para si o que elas confiarem a você em segredo!
Daquele dia em diante, sempre que vejo uma caixa de fósforos ou um simples palito aceso, passei a lembrar de minha professora de belos cabelos vermelhos cacheados. Não importa se algum tempo depois soube que eram tingidos. Aliás, descobri ser coisa muito comum entre as mulheres.
Ops! Dá licença. Acabou de soar a campainha, tenho que entrar e concentrar-me na prova de ciências. Já estou na 7ª série e as boas notas sempre impressionam… Afinal, as mulheres apreciam homens inteligentes. Mas não se esqueça: são conquistadas nos pequenos detalhes!

 

criado por contonton    0:23 — Arquivado em: Contos
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