
Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Positivo! Sheylinha estava realmente grávida! De imediato, seu pai, conhecido político da região, apressou-se em realizar contatos para arranjar-lhe um marido. Negociações pra lá, negociações pra cá, negócio fechado. Definido o dote em parcelas anuais, o filho de seu principal opositor estava disposto a desposá-la. Mas o acordo previa um mínimo de cinco anos de união conjugal e apoio incondicional nas duas próximas eleições: uma local e outra geral.
A questão agora, para a sua família, pairava em descobrir quem era o verdadeiro pai biológico da criança. A futura mãe, em seu jeito sempre arredio, negava-se terminantemente em declarar a paternidade.
Com aquele corpão no esplendor de seus 21 anos de idade, roupas sempre provocantes, unhas e lábios vermelhos, bronzeado sempre em dia e uma inigualável marca de biquíni “asa delta”, conquistada por horas a fio de exposição ao sol à beira da piscina, poucos homens na cidade deixavam de ser suspeitos do fato, tal o poder de sedução que ela transpirava.
Apesar de todos estes atributos e da fartura de recursos materiais à sua disposição, em realidade, Sheyla era uma pessoa infeliz. Sua mãe não tinha suportado a brusca mudança de estilo de vida – e de caráter, diziam os mais próximos – ocorrida quando seu pai foi eleito para exercer seu primeiro mandato em Brasília e deste separou-se, indo morar em outro estado, muito longe, pois ele não lhe permitira mais visitas à filha, a qual tratava como troféu, tamanha a sua beleza, confirmada em sua evolução da infância à adolescência, e agora no início da vida adulta.
Não lhe restou outra opção a não ser recorrer ao apoio profissional para ajudá-la a compreender as suas incompreensões e minorar-lhe o constante sofrimento acerca de seus sentimentos. O escolhido foi Dr. Fausto, psicólogo de renome na cidade, ex-padre, viúvo sem filhos, já que casara em idade avançada com a também já bastante madura D. Florzinha, à memória de quem dedicava devoção. As sessões foram transcorrendo semana após semana. Era visível a mudança de comportamento operada e a alegria de viver inundava o rosto da jovem.
Em fenômeno bastante comum, Sheyla apaixonou-se por seu freqüente interlocutor, transferindo a atenção profissional para o campo afetivo pessoal. Decidiu conquistá-lo. Algum tempo depois, percebidas as suas intenções, o Dr. Fausto disse-lhe que teriam que encerrar o tratamento. Percebendo que não teria maiores chances, elaborou ardiloso plano para o último encontro. E o resultado desejado foi conseguido. Após “strip-tease” sedutor, foi impossível resistir-lhe. Entregaram-se à conjunção carnal. Mas, o inesperado acontece: o idoso amante não resiste à emoção e falece em pleno ato em enfarte fulminante. Ela veste-lhe e chama a polícia…
Realizado o matrimônio, dias depois nasce a criança. O avô quis dar-lhe o seu próprio nome, mas foi prontamente rejeitado. Como uma última e póstuma homenagem ao seu grande amor, Sheyla o batizou com o nome de Odivan. Perguntada sobre a escolha, ela falou que havia gostado do nome ao ouvi-lo de um narrador num jogo de futebol na televisão, que, aliás, ela detestava profundamente…