Contos e Histórias de Tonton

Contos, histórias, poesias e muito mais coisas do mundo literário de Antonio Nunes, carinhosamente chamado de Tonton por amigos e familiares.Visite também: http://contonton.blogspot.com

27/1/09

Qual o tamanho ideal de um conto?

 

 

Por Antonio Nunes

 

Certa vez me perguntaram: – Tonton, qual o tamanho ideal de um conto?
Pensem numa perguntinha difícil de responder! Existem maravilhosos contos mais longos e estupendos contos curtíssimos. Diria que a beleza da arte-técnica do conto não está, necessariamente, em seu número de linhas ou de páginas. Depende, antes de tudo, da intenção do escritor. Ele pode pretender dar o seu recado em um microconto (de até 150 palavras) ou em um conto com maior número de páginas. A força da qualidade da narrativa não reside em seu tamanho, mas na capacidade de alcançar o objetivo pretendido, de prender o leitor, cativar o seu interesse etc. Embora o tamanho ou número de páginas ou palavras, por vezes, seja tomado como critério para a classificação dos gêneros literários (conto, microconto, novela, romance etc.), creio que esta discussão não faz sentido ter lugar neste momento. Assim sendo, passemos a uma análise de caráter pessoal, que não tem a menor pretensão de ser dona da verdade, mas apenas contribuir para que escritores iniciantes – ou com menos estrada do que eu – possam refletir e alcançar as suas próprias conclusões a partir do que aqui lhes disponibilizo. Espero, sinceramente, que este escrito possa lhes ser de utilidade.
Cordial abraço, da terra do frevo e do maracatu.

Bom, sem dúvida, um conto tradicionalmente não se alonga, ou melhor, em geral, é curto. E essa medida pode se dar em distintas perspectivas. Quatro ou cinco laudas manuscritas que, quando digitadas ou impressas em um livro, não passam de duas ou três páginas e que, no meu humilde entender, se configura como espaço mais que suficiente para se “dar o recado”. Não raro, a beleza de um conto, que é justamente a concisão – ainda que com profusão de detalhes cuidadosamente ali colocados para seduzir ou encantar o leitor, atraindo-lhe a atenção para a narrativa, envolvendo-o e desarmando-o, deixando-o à mercê dos artifícios criativos e das intenções do escritor – fica comprometida quando este se alonga demasiadamente. A arte do conto, como a entendo, reside justamente em dizer mais com menos. Então, é preciso cortar do conto o que for supérfluo. Todavia, em algumas narrativas, para uma melhor caracterização do cenário, da situação ou mesmo do(s) personagem(s) envolvido(s) será necessário esticá-lo um pouco mais do que habitualmente nos permitimos ou nos impomos como limitantes. Façamos, então, as devidas concessões. Contos mais longos pode ser uma questão de estilo. Embora, como já afirmei, prefiro os mais curtos que não necessariamente serão os melhores ou aqueles, os mais longos, serão piores. Alguns podem demandar mais páginas, e pronto! Difícil, porém, será manter o desejado grau de excitação do leitor por páginas a mais do que em outras narrativas. O fato de uma determinada narrativa ser mais longa do que normalmente escrevemos ou encontramos não desmerecerá ou invalidará jamais a sua qualidade contística. Pelo contrário, às vezes, um ou outro texto mais longo, entremeado por outros mais curtos em uma coletânea, serve justamente ao propósito de propiciar ao leitor uma folga providencial para que possa respirar um pouco menos ofegante – ou como outros prefeririam dizer, com mais calma – antes de partir para o próximo escrito. Sendo assim, se dá na medida certa, medida coletiva. Do contrário, se todos os textos forem excessivamente longos, uma fadiga inexorável alcançará o leitor, a menos que uma maestria narrativa lhe seja imposta aos olhos e à mente, envolvendo-o e dominando-lhe a percepção, o que é extremamente raro. O ideal é quando o leitor toma o livro em mãos e, dispondo de algum tempo, somente o deixará de lado ao ler o contido na última capa… Ou seja, como dizemos aqui no nordeste do Brasil, "leu tudinho de uma tirada só!”…

criado por contonton    17:50 — Arquivado em: Contos, Pessoais

25/1/09

Pondo fim à solidão…

 

 

Por Antonio Nunes

 

Era início da tarde de sábado, não passava das duas quando começou a se arrumar com o habitual esmero e zelo em cada detalhe de seus trajes. Escolheu cuidadosamente as vestes, os enfeites e, como não poderia deixar de ser, caprichou na maquiagem. A bolsa, o cinto e os sapatos combinavam perfeitamente entre si. Era uma pessoa elegante e gostaria de ser lembrada para sempre como tal. Tinha um orgulho incomum de ser reconhecida como uma das mais prestigiadas vedetes que este país já viu desfilar nos palcos de suas casas de espetáculo. Entretanto, isto escasseava a olhos vistos, que pousavam a atenção nela cada vez menos.
Iria ao shopping center do bairro no qual residia. Lá sempre havia muita gente e o burburinho das crianças, das famílias e da juventude a faziam sentir-se viva. Por entre os corredores do centro comercial sempre encontrava algo para chamar-lhe a atenção. Vez ou outra se permitia perguntar pelo preço desta ou daquela coisa. Dedicava horas à descobrir novos autores na livraria cada vez mais repleta de freqüentadores e, por fim, iria à cafeteria, onde sentada no cantinho habitual, contemplava o vai e vem dos transeuntes. Era uma festa para os sentidos toda aquela agitação do final de semana, que ela esperava ansiosamente chegar. Ali era sempre recebida com um sorriso pelas atendentes sempre atenciosas. Era bom sentir-se entre amigos, mesmo que eventuais.
Tomou um capuccino, degustando-o a cada vez que molhava os lábios delicadamente. Adorava sentir o calor do café, talvez o único prazer que experimentara com regularidade desde a morte da gata Josefina, sua fiel companheira em mais de uma década. Sorvendo a última gota daquele precioso líquido, fechou os olhos e levando as mãos à xícara ainda quente, pousou-a à mesa para, em seguida, orbitar a boca com o indicador direito, como se trazendo à memória uma boa lembrança, pois sorria, discretamente, em ato contínuo.
Abrindo os olhos, aproximou de si a xícara com ambas as mãos e percebeu não restar mais nada, além de uma borra de chocolate, café e do muito açúcar com que adoçava tudo o que bebia. Talvez, assim, a vida lhe parecesse menos amarga. Fez menção de raspá-la com a colherinha e deliciar-se com ela, mas recuou. Sorriu outra vez quando em frente a si um jovem casal fazia jogos de sedução com um gesto igualzinho àquele que ela acabara de se negar a fazer. Delicadamente enxugou os lábios, em um gesto meticulosamente estudado.
Com igual preparo, retirou da bolsa o estojo contendo o batom que cuidadosamente retocou olhando-se no espelhinho minúsculo. Fez questão de repicar o cabelo ao lado de cada orelha, deixando à mostra os brincos de pérola que ganhara muitos anos atrás em um concurso de beldades em sua cidade natal.
Fez sinal para a garçonete e fez questão de deixar-lhe como gorjeta todo o generoso troco da nota que depositara na caixinha, dobrada ao meio para não despertar a cobiça alheia. Levantou-se apoiada em sua bengala de cabo de madrepérola e dirigiu-se ao cinema. Escolheu o filme mais longo, não importava o gênero. Estava ali somente para passar o tempo e não para distrair-se. Foi saudada pelo bilheteiro ao início da fila que se formava para a sessão, reconhecendo-a por estar ali todos os sábados e garantindo-lhe a dianteira para que adentrasse com absoluta prioridade.
Passando ao lado dele um outro dos funcionários do complexo de lazer, pediu-lhe que a conduzisse com todo o conforto e segurança à sala de exibição. Ela agradeceu a gentileza e repousou levemente a mão sobre o rosto do jovem e educado cavalheiro, dirigindo-lhe palavras lisonjeiras que o fizeram corar à frente da platéia que se agigantava. Adentrou, escolheu o assento e aguardou o apagar das luzes. Como de costume, tirou da bolsa o drops de alcaçuz e o colocou sob a língua para derretê-lo de um modo bem especial, todo seu. Quando deu por si, os créditos da filmagem e das locações já apareciam na telona. E o dia quase que havia terminado…
Tomou o táxi e em poucos minutos chegou a casa. Ninguém foi recebê-la. Não havia ninguém para recebê-la. Com exceção da pequena lâmpada incandescente no oitão que dava para o quintal, tudo estava às escuras. Então, foi de imediato para a cozinha, pôs água no fogo para fazer o chá que tomaria de um gole único, com as muitas colheradas do formicida comprado no dia anterior, plena sexta-feira, 13 de agosto, devidamente dissolvido, como se fosse o saboroso açúcar que fazia questão de consumir. Afinal, tudo o que ela mais queria, em realidade, era por fim à solidão…

criado por contonton    10:34 — Arquivado em: Contos

22/1/09

Sociedade de escritores…

 

 

Por Antonio Nunes

 

 Viviam em uma cidadezinha do interior e o que mais detestavam eram os saraus poéticos que dominavam as atenções dos concidadãos nas noites de sexta-feira.

 

criado por contonton    23:22 — Arquivado em: Contos

21/1/09

Tudo é relativo…

 

Por Antonio Nunes

 

Éramos bastante jovens, recém saídos da adolescência e de nossa cidade natal a muitos quilômetros da capital. Vibrávamos com a ideia de alguma independência e ainda mais com a possibilidade de levarmos uma vida a dois, longe das amarras de nossos pais – principalmente os dela, já que namorávamos às escondidas havia um bom par de meses.
Tudo era feito com muita discrição, com o devido cuidado para não sermos descobertos, revelados, pois certamente seria o fim de nosso romance, de nossos sonhos e de nossa liberdade. Ela fazia medicina e eu engenharia, carreiras tradicionais, satisfazendo as expectativas de nossas famílias tradicionais. Apesar de algumas barreiras em contrário, conseguimos convencer nossos pais, a despeito de seu conhecimento, a morarmos em um pequeno flat – cada um no seu – no mesmo edifício.
As nossas moradias eram mínimas, mas seriam nossos sonhados ninhos de amor. Não havia espaço para mais nada além da escrivaninha para estudos, a cama de solteiro, um pequeno guarda-roupa e a estante de nossos livros. Se a cozinha não fosse no estilo americano o aperto seria maior ainda. Espaço para uma cama de casal? Nem pensar! Acho que aquela visão, de certo modo, conferia uma pretensa tranqüilidade aos pais dela.
Entretanto, para nós, com os hormônios em ebulição, aquele aperto não significava absolutamente nada. Estávamos contentes por estarmos próximos. E não demorou estávamos nos visitando, na calada da noite e nos fins de tarde, para namorarmos, dormirmos abraçados e sairmos sorrateiramente em meio às madrugadas. A felicidade estava estampada em nossos rostos, embora nada declarássemos a respeito. Estava claro que mudanças se processavam em nossas vidas!
Esperta que era, a mãe dela logo arranjou um jeito de vigiar de perto a filha. Contratou para diarista a enteada de sua vizinha, que também morava na capital, e que, entre outras atribuições, tinha o dever de telefonar semanalmente à contratante para informar-lhe de sua filha, de sua evolução nos estudos ou de qualquer outra ocorrência suspeita. Foi aí que a coisa pegou…
Redobramos os cuidados. Sabíamos que estávamos sob vigilância e que qualquer erro poderia ser fatal para as nossas pretensões de amor livre e desimpedido. A tal D. Lourdes era um sargentão e frequentava a casa dela nas terças, quintas e sábados. E aqueles dias eram proibidos para mim. Uma verdadeira tortura para quem vivia cheio de carinho para dar e receber.
Então, em uma quarta-feira, fui à casa dela para encontrá-la e tentar matar refrear um pouco de meus instintos. As saudades eram imensas. Eu já não aguentava ficar tanto tempo longe de suas carícias. Tomei um bom banho, perfumei-me e com um sorriso de esperança nos lábios, toquei a campainha. E quem me aparece em pleno fim de tarde com um pano na cabeça? Ela, a vigilante D. Lourdes que compensava a falta do dia anterior no qual tinha levado ao posto médico o filho que adoecera de repente. Sem aviso, não deu para esconder o espanto. Perguntei discretamente pela amada que veio em meu socorro.
– A senhora conhece o Geninho, lá de minha cidade, não é verdade? Ele me perguntou se conhecia alguém que poderia fazer-lhe diárias e eu falei da senhora pra ele! – disse ela, com o que fui concordando com a cabeça imediatamente.
Ufa! Que boa ideia ela teve! – pensei com os meus botões.
Sentamos e rapidamente acertamos os dias, valores e todos os demais detalhes para a prestação do serviço. Ela fazia questão de incluir a lavagem completa das roupas. Era só para aumentar os rendimentos dela. Pacote completo, não fazia por menos! Enquanto fechava o negócio, mentalmente, fiz as contas e percebi que teria que cortar todos os supérfluos, entre elas as cervejas com os amigos e talvez, até mesmo, um ou outro cinema com a namorada. Bom, não tinha outro jeito, explicaria a parte do prejuízo do lazer e ela haveria de concordar com a decisão tomada naquela situação de extrema necessidade.
E assim fomos levando, driblando aqui e ali a sargentona. Mas sabem como é, né? Não existe crime perfeito e acabamos por deixar algumas pistas à mostra. D. Lourdes encontrou no apartamento dela algumas meias grossas minhas, daquelas de algodão, masculinas, bem felpudas e algumas camisetas, dessas de propaganda, no cesto de roupa suja. Só que ela se justificou legal, disse-lhe que era roupa para ginástica, para malhar, mais confortável e, ao que parece, a convenceu direitinho de estar dizendo assertiva inquestionável.
Só que comigo aconteceu diferente… Quando tratava de guardar a roupa passada em minhas gavetas, acabou por encontrar umas três calcinhas lavadinhas, dobradinhas, perfumadas que a minha namorada fazia questão de manter em meu apartamento para o caso de alguma necessidade, para depois de um banho ou simplesmente para a troca após uma noite de amor.
Eu somente tomei conhecimento do ocorrido e de sua repercussão algum tempo depois, quando retornei à nossa cidade para as férias de meio de ano, sendo duramente chamado de lado por meu pai e por minha mãe. Eles que eram sempre tão amáveis comigo estavam irreconhecíveis. Impossível saber naquele instante do que se tratava. E quem havia dado a informação aos meus pais havia sido a mãe dela que narrara o telefonema de nossa serviçal em comum:
– Ah, D. Ana, a sua filha é uma santa. Já o Geninho, dos Batista, aí da rua de baixo, sei não…
Não teve outro jeito. Tive que abrir o jogo com os meus pais, na maior. No mês seguinte celebramos o noivado, com o casório agendado e tudo mais, para a surpresa de D. Lourdes que, demitida que fora, estupefata, não entendia nada do que se passava… Eu conservava no rosto um irônico sorriso, um misto de vingança e satisfação…

criado por contonton    1:40 — Arquivado em: Contos

15/1/09

Assassinando a magia…

 

 

Por Antonio Nunes

 

Dia desses eu estava conversando com um vizinho, sentado em um banco no jardim do edifício no qual residimos, e a sua filhinha de uns 6 anos de idade, que chegava do colégio ao final da tarde, dirigiu-se a ele com muita alegria e mostrou-lhe uma novidade em seus cabelos: estava com uma discreta mecha azul em sua cabeça!

Então, aproveitando o clima e em tom de brincadeira, disse-lhe que também pintava os meus: com tinta invisível! E mostrei-lhe o cucuruto, perguntando, em seguida, se conseguia vê-los (claro que não!).

Foi aí que, recorrendo à mãe que vinha logo atrás, ela perguntou - meio que espantada, crédula e em dúvida - se "a tinta" existia.

A resposta foi seca: - Não! Isso não existe! Não vê que ele é calvo? - retrucou-lhe.

Não sabe ela, a genitora, que é por essas e outras do gênero que se mata a magia do Papai Noel, das fadas, do saci-pererê etc., tão necessárias ao desenvolvimento das crianças… Não é verdade?!?

 

criado por contonton    19:05 — Arquivado em: Pessoais

12/1/09

O que estive lendo nestas férias…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho

 

Bom, amigos, vejamos o que eu posso dizer a respeito de uma mensagem que recebi recentemente. Sempre recebo e-mails perguntando isso e aquilo sobre contos, literatura em geral e dando e pedindo sugestões de leitura. Agradeço imensamente todo o interesse, em especial as indicações de onde e como conseguir alguns títulos, bem como as discussões que, sem dúvida, acabam sendo esclarecedoras e com as quais aprendo bastante. Entretanto, no tocante ao último aspecto é que a coisa complica. Explico: a leitura é uma coisa muito pessoal. A relação do leitor com cada livro é uma coisa muito particular, variando de pessoa para pessoa, segundo suas predileções, o momento e a época em que se dá a leitura. Mas, como bom nordestino, cabra da peste, não poderia me furtar ao que me foi diretamente solicitado. Todavia, vou me restringir ao que li recentemente, no último mês. Pode ser assim?

Dentre a cerca de meia dúzia de livros que li - trechos ou por completo nestas férias (impossível não confessar que também sou um leitor compulsivo, não é verdade?) - destaco três como maravilhosos. O primeiro deles foi o conto infantil "O carrasco que era santo", de Josué Montello ( Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994). Muito mais que maravilhoso, surpreendente e, acima de tudo, de uma construção irretocável. Um dia o oferecerei aos meus filhos. O segundo foi "Esquetes de Nova Orleans", de William Faulkner (Rio de Janeiro: José Olympio, 2002), de uma riqueza descritiva de detalhes que prende a atenção do leitor e o introduz no mundo dos personagens destes contos pra lá de bons. E o terceiro foi a excelente obra de Ana Maria Machado, da série como e por que ler, "Os clássicos universais desde cedo" (Rio de Janeiro: Objetiva, 2002). O texto flui como uma conversa mais que agradável e nos leva a novas descobertas, ainda que já estejamos iniciados naquele mundo literário. Recomendo, se isso for possível, a pais e professores de todos os níveis do ensino regular para terem seguras orientações do que oferecer aos seus filhos e alunos, bem como para crianças, jovens e adultos que pretendam ter uma boa iniciação na literatura ou que, porventura, não a tenham tido em boa experiência anteriormente. Certamente a sua forma de ver a literatura será outra e vocês aprenderão a apreciá-la como nunca antes o fizeram. Vão lá, atrevam-se, leiam-os… Estes valem mesmo a pena ser lidos!

 

criado por contonton    13:30 — Arquivado em: Pessoais

10/1/09

O rapto dos sorrisos…

 

 

Por Antonio Nunes Barbosa Filho
Para Carol Castillo Iturrieta

A professorinha estava preocupada. Havia dias que não via um sorriso no rosto de seus alunos. Tentou de tudo: criou novas brincadeiras – as antigas já não davam resultado, leu todos os livros da biblioteca – e nenhum deles exerceu o menor encanto sobre eles, levou-os ao zoológico – para verem as macaquices e nada. Absolutamente nada!
Como aquilo atingiu toda a turma, pensou que se tratava de alguma epidemia, alguma virose, dessas extremamente contagiosas e que ninguém escapa de sua contaminação, pois ela mesma já não sentia a mínima vontade de sorrir. Imaginem só, mesmo exercendo o mesmo trabalho que já realizava há anos, ela não mais encontrava alegria em dar aulas aos pequeninos. Pensou que também adoecera…
Foi ter com a diretora do colégio que a orientou a procurar um médico. E lá foi ela a uma clínica, cuidar antes de si própria. Em lá chegando, poucos minutos depois saiu com a receita e o diagnóstico em mãos: depressão. Ela não podia e nem queria acreditar. Jamais imaginou que a ausência daqueles sorrisos pudesse ter efeito tão avassalador sobre a sua saúde. Iniciou o tratamento, mas não sentiu melhoras. Afinal, a causa do seu mal-estar estava bem ali. Aliás, não estava! A solução era, então, recuperar-lhes o sorriso. Mas como?
Estava convicta de que crianças sem sorrisos se transformariam em adultos infelizes, sem alegria. E aquela condição afetaria não somente a si mesmos, mas a todos que os cercassem. Ela própria era prova viva daquele fatídico destino.
Procurou sábios, cientistas, ocultistas, videntes, os mais experientes especialistas, entretanto ninguém soube apresentar solução satisfatória, muito menos contínua e duradoura. Parecia que não tinha jeito, que o mundo estava fadado a não ser mais o mesmo lugar interessante de antes…
Foi então que ela teve a feliz idéia de procurar D. Zefinha, já passando dos oitenta, quase beirando os noventa anos, sua antiga babá, fiel conselheira e eximia quituteira. Ao abocanhar guloseimas, experimentou recordações de sua infância, inclusive das gostosas gargalhadas que dava quando a descobriam de rosto pelo chocolate.
Esperta que era, D. Zefinha foi dando logo a solução:
– Ô minha filha, o problema não está nas crianças, a origem de tudo isso está nos pais!
Fazendo cara de espanto, deu de braços para cima e continuou a ouvir a explicação:
– Acontece que hoje em dia os pais estão cada vez mais preocupados com o trabalho, com a crise, vivem estressados, com cada vez menos tempo pra os seus filhos! Não conversam com eles, não brincam juntos, não andam de mãos dadas e sequer os põem para dormir. Assim não dá para assegurar-lhes algum calor humano! É só não, não, não…
E o sorriso foi voltando aos seus lábios. Timidamente, de início, é verdade. Mas foi o suficiente para ter certeza de que o remédio estava a caminho.
Saíram dali direto para o Congresso Mundial das Vovós Contadoras de Histórias, iniciando, imediata e mundialmente, a imunização contra aquele mal que ficou popularmente conhecido como o “Rapto dos sorrisos”.

criado por contonton    20:54 — Arquivado em: Contos

5/1/09

Um enigmático conto de Natal…

 

 

Por Antonio Nunes

 

Vinte de dezembro. Os corredores do shopping center estão cheios de pessoas a buscar os últimos presentes. Há dificuldades em tudo. Para encontrar uma vaga no estacionamento, para encontrar o brinquedo desejado pelos sobrinhos, para encontrar o último best-seller lançado nas livrarias, para se encontrar um vendedor livre e ainda disposto a atendê-lo por àquelas horas.
Já é quase fim de expediente, algumas lojas já estão cerrando as suas portas e somente os clientes que se encontrarem em seu interior serão atendidos. Não sei por aonde ir. As ideias sobre o quê e a quem presentear cada coisa parecem não fazer sentido algum. Decido, instintivamente, ir ao pavimento inferior ao que me encontro. Apresso-me. Muitas outras pessoas parecem ter a mesma iniciativa. Procuro apoiar-me no passamão; uma queda em meio à multidão seria mais que vergonhoso, seria desastroso.
E eis que outro alguém tem a mesma iniciativa no mesmo momento. Acabamos por tocar as nossas mãos. A minha por cima da dela. Soube que era ela pois, de imediato, fomos levados a procurar o rosto um do outro e, como se daquele gesto simples resultasse algo pecaminoso, demandamos desculpas mutuamente.
– Não por isso! – respondemos em uníssono.
O sorriso em nosso semblante sobreveio, em uma fração de segundos que parece perdurar uma eternidade. Atrevo-me a convidá-la para um café. Sem hesitação, ela aceita. Aquele encontro selaria o fim dos meus dias… Ao final do capuccino – e já não havendo mais o que fazer naquele ambiente –, ela me convida a tomar um drinque em sua casa e a continuarmos a agradável conversa sobre a vida, literatura, etc. Enfim, sobre tudo.
Não sabia eu que aquele seria o fim…

 

criado por contonton    14:10 — Arquivado em: Contos

Fenomenal…

 

 

Por Antonio Nunes

 

Era fenomenal a energia, a disposição daquele garçom magricela em nos atender. Certamente foi o mais ágil e prestativo garçom que já me serviu em toda a minha vida boêmia. E olha que já foram muitas noites adentro pelo mundo afora… Aquele sujeito tinha mais que baterias alcalinas. Parecia que não se cansava nunca.
Foi então que propus a mim mesmo um desafio. Permanecer no bar até vê-lo entregar os pontos. Vê-lo sentar-se e descansar um pouco, pelo menos. Comecei a noite com bebidas não-destiladas, para manter-me sóbrio por muito mais tempo. E o que eu ouvia era “Hulk” para cá, “Hulk” para lá… Todos o chamavam de um lado ao outro e ele atendia a todos com a mesma presteza.
Eu imaginei que aquela forma de chamá-lo se tratava de uma gozação de seus colegas em razão de sua compleição franzina ou, no mínimo, em razão de sua intensa capacidade. Mas eu estava enganado.
Muitas, mas muitas horas e garrafas vazias depois eu já quase não me aguentava mais e ele nem-nem. Continuava com a corda toda, como se tivesse começado a jornada naquele instante. Era incrível! Não, era muito mais. Era fenomenal!
E chegou a hora em que não restaram não mais do que duas ou três mesas no bar, todas ocupadas pelos mais destemidos e dispostos pinguços. Por àquela hora eu não aguentava nem mais um gole de água tônica que havia pedido como uma espécie de lavagem interior.
Chamando-o de lado, ofereci-lhe assento ao que me respondeu que estava bem de pé. Como a ansiedade me dominava a mente havia muitos minutos, questionei-lhe, educadamente, se poderia fazer-lhe uma pergunta de cunho pessoal. Ele me disse que sim. Então, tasquei de imediato:
– Qual o motivo de todos chamarem você de Hulk?
– Olha, doutor, isso é apelido de família que trago desde pequeno! – respondeu-me.
– Que curioso, explique-me melhor, por favor! – retruquei.
– A coisa é simples: quando minha mãe estava grávida de mim, ela enjoava de tudo. Diziam que vivia o tempo todo verdinha da silva. Aí o meu pai disse a toda a vizinhança que ela só podia ter um “Hulk” dentro dela. Aí a coisa pegou, sabe como é, né? – disse na maior naturalidade e sorriu. Aliás, sorrimos…
E não tinha jeito dele sentar. Ao me despedir, perguntei:
– Qual sua graça mesmo, meu bom rapaz?
– É “Deividebener”. “Deividebener”, doutor. Às suas ordens!
E saiu arrumando as mesas do lugar, tocando os últimos fregueses para a casa…

 

criado por contonton    13:48 — Arquivado em: Contos

22/12/08

O livro das flores - resenha

 

 

 

Por Antonio Nunes

 

Em "O livro das flores" dá-se o encontro casual de um garotinho sempre ávido e curioso por obter conhecimentos na biblioteca da casa de seus avós, com um estranho livro que está esquecido sob um pesado birô. Ao descobrí-lo, é natural que comece a folheá-lo. Mas este livro tem algo mais, tem vida e vontades próprias. Então, o inimaginável acontece…

 

O que teria a ver um livro de capa feia, esverdeada, horrendo aos olhos dos outros meninos, com flores? Diziam mesmo que tinha uma aparência repugnante, por isso vivia esquecido num canto qualquer da biblioteca…  O pequeno leitor voltará dias e dias seguidos para desvendar o segredo contido naquelas páginas… Até que…

 

Tcharam! Aguardem mais esta aventura… Quem leu disse: - Fantástica!

 

criado por contonton    10:07 — Arquivado em: Contos, Pessoais
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